Família como pilar: lições dos Sami e pesquisadores para superar adversidades
Em uma jornada pelos países nórdicos, o cirurgião bariátrico e pesquisador Cid Pitombo mergulhou em dois mundos aparentemente distantes, mas profundamente conectados pela resiliência e pela importância da estrutura familiar. De um lado, o povo Sami, nômades que habitam regiões da Suécia, Noruega, Finlândia e Rússia, enfrentando condições extremas de frio há milênios. Do outro, os pesquisadores dedicados a longas e árduas jornadas científicas, como aqueles que desenvolveram as chamadas "canetas emagrecedoras".
Resiliência no frio ártico e nos laboratórios
O povo Sami sobrevive acompanhando manadas de renas, que fornecem carne, pele para agasalhos, e materiais para utensílios. Em uma tenda aquecida por fogo de lenha, Pitombo ouviu histórias que revelaram um segredo crucial: a família é a peça mais importante para sua sobrevivência física e mental ao longo dos séculos. Essa descoberta ecoa diretamente no mundo da pesquisa científica, onde a jornada para grandes descobertas é muitas vezes solitária e subvalorizada.
Instituições públicas, privadas, governos e até universidades frequentemente não investem ou não acreditam nesse caminho árduo. O pesquisador, assim como os Sami, sabe que deve continuar caminhando, mesmo diante de adversidades como noites mal dormidas, alimentação inadequada, e a troca do dia pela noite. Ambos enfrentam a invisibilidade de seus esforços, sem garantias de que o trabalho levará a resultados concretos.
Famílias que se entendem e se apoiam
Uma similaridade marcante entre esses dois povos é a tendência de se casarem entre si, formando famílias de pessoas da mesma área. Isso cria um ambiente de compreensão mútua e apoio no dia a dia adverso. A ausência dos pais é comum, seja para caçar ou para pesquisar, mas ambos dependem de um lar – uma tenda ou um espaço familiar – carregado de amor, carinho e admiração ao retornarem de semanas de trabalho intenso.
As vestimentas típicas dos Sami, desenhadas e tecidas por suas próprias mãos, simbolizam essa autonomia e coesão. Eles aprenderam, independentemente de orientações religiosas, que a família é necessária para a sobrevivência física e mental. Essa lição se reflete em exemplos históricos de pesquisadores que transformaram o mundo com o apoio familiar.
Exemplos históricos de dedicação e apoio
- Marie e Pierre Curie: dedicaram 11 anos ao estudo de elementos radioativos, culminando na descoberta do raio-X.
- Peter e Rosemary Grant: isolaram-se nas Ilhas Galápagos para produzir uma das maiores obras sobre evolução.
- Irene e Frederic Joliot-Curie: contribuíram para o desenvolvimento da energia nuclear.
- Lotte Bjerra Knudsen: pesquisadora dinamarquesa que participou do desenvolvimento da liraglutida e semaglutida (como o Ozempic), moléculas que hoje são injetadas em milhões de pessoas, combatendo obesidade e diabetes, graças ao equilíbrio proporcionado por sua família.
No isolamento do frio ártico ou das câmaras geladas dos laboratórios, esses "povos" dedicados à sobrevivência – os Sami, de seu próprio povo, e os pesquisadores, de toda a humanidade – compartilham uma sabedoria comum. Eles não buscam glórias, agradecimentos ou admiração, pois não há tempo para isso. O que sabem, com certeza, é que ao retornarem às suas "tendas", tudo o que precisam estará lá: a família, o pilar inabalável que sustenta tanto a preservação de culturas milenares quanto as descobertas que salvam vidas.