Na província espanhola de Huelva, a pequena aldeia de Corterrangel viu sua população aumentar em impressionantes 15% com a chegada de apenas um casal. Ainara e Roger, pesquisadores que viveram 15 anos em Sevilha, cidade de cerca de 700 mil habitantes, decidiram trocar o asfalto pelo silêncio de um vilarejo com apenas 15 moradores, cercado por bosques de castanheiros, azinheiras e sobreiros.
Fuga dos altos preços e busca por tranquilidade
O casal, ambos cientistas do Conselho Superior de Pesquisas Científicas (CSIC), enfrentava a realidade comum a muitos jovens espanhóis: aluguéis cada vez mais caros e a quase impossibilidade de comprar um imóvel em uma grande cidade, especialmente sem um contrato de trabalho fixo. Em Corterrangel, conseguiram comprar uma casa à vista com suas economias, um sonho distante em Sevilha.
"Valorizamos muito o silêncio e o contato com a natureza", afirma Ainara. Agora, eles criam a filha, Irati, em uma casa com espaço para a cachorra Eska, galinhas e uma horta, longe do trânsito e dos ruídos urbanos. O preço? Uma hora de deslocamento de carro até o escritório em Sevilha. "Viver aqui nos dá muita paz", resume a pesquisadora.
Esta história não é um caso isolado. Nos últimos anos, cresce na Espanha o número de jovens que pretendem deixar os grandes centros urbanos, um movimento batizado de "neorrurais", intensificado durante a pandemia. A busca por melhor qualidade de vida e a fuga dos preços históricos da moradia são os motores principais.
Crise habitacional impulsiona o desejo pela vida rural
Os números explicam o êxodo. Na Espanha, os preços dos imóveis já superaram os níveis da bolha imobiliária de 2008, e os aluguéis subiram a taxas de dois dígitos em muitas regiões. María Matos, diretora de estudos do portal imobiliário Fotocasa, revela que uma pesquisa do verão mostrou que 63% das pessoas que buscam moradia gostariam de se mudar para uma área rural.
O desejo é ainda mais forte entre os jovens de 18 a 24 anos, atingindo 70%. No entanto, a maioria reconhece a dificuldade de concretizar o plano, principalmente devido à localização dos empregos. O descompasso é gritante: enquanto o salário médio bruto no país é de 2.385 euros, em Madrid alugar um apartamento padrão de 80 m² custa, em média, 1.789,60 euros por mês.
Para Anaí Meléndez, ex-moradora de Madrid, o preço "irrisório" dos salários na publicidade contrastava com aluguéis extorsivos. Após uma série de frustrações, incluindo ser despejada sob falsos pretextos, ela decidiu mudar radicalmente. Usando o seguro-desemprego, voltou para sua região de origem, Nava del Rey, e abriu o restaurante "Caín", especializado em carnes na brasa com produtos locais.
"Nos vilarejos, há muito trabalho, mas é preciso criá-lo, ir atrás", avalia Anaí, que vê outros jovens retornando para abrir negócios como clínicas de fisioterapia ou modernizar vinhedos familiares.
Revitalizando a 'Espanha Vazia' e enfrentando barreiras
Esse fluxo de novos moradores é uma esperança para as áreas rurais que formam a chamada "Espanha Vazia", regiões que sofrem com o despovoamento histórico e a consequente perda de serviços públicos e comércios. Organizações como a Associação para o Desenvolvimento Integral do Vale de Ambroz (DIVA) trabalham para reverter esse ciclo vicioso.
"As pessoas buscam qualidade de vida e tranquilidade, e muitas famílias querem criar os filhos no meio rural", afirma Diego Curto, gerente da DIVA. A associação cria bancos de imóveis disponíveis e divulga informações sobre serviços locais para atrair e fixar novos habitantes, incluindo famílias latino-americanas cansadas da vida nas grandes cidades espanholas.
No entanto, os obstáculos são reais. A falta de habitação disponível nos vilarejos é um problema crítico, assim como os estereótipos sobre a vida no campo. Além disso, é preciso abrir mão de certas comodidades urbanas. "Você não pode ir às 2h a um minimercado, não tem aplicativo de entregas", admite Anaí Meléndez.
Apesar dos desafios, para aqueles que conseguem fazer a transição, como Ainara e Roger, a recompensa é clara. "Com certeza nos consideramos 'neorrurais'", afirma Roger. A mudança não foi apenas uma necessidade financeira, mas uma decisão consciente e desejada por uma vida com mais significado e paz, longe do caos e do custo proibitivo das metrópoles espanholas.