Semaglutida: proteção cardíaca vai além da perda de peso, revela estudo
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, nesta segunda-feira (2), uma importante ampliação no uso da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy. A substância, já conhecida por sua eficácia no tratamento da diabetes tipo 2 e na perda de peso, agora é oficialmente indicada para redução do risco de eventos cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral (AVC), em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso.
Proteção cardiovascular independente da perda de peso
Uma nova análise do estudo SELECT, o maior estudo clínico já realizado sobre os benefícios cardiovasculares da semaglutida, publicado na revista científica The Lancet em 2025, trouxe uma revelação significativa. A pesquisa demonstrou que a semaglutida é capaz de reduzir o risco de problemas cardíacos independentemente da quantidade de peso perdida pelos pacientes.
Mette Thomsen, vice-presidente sênior da área médica global da Novo Nordisk, explicou em entrevista exclusiva que não há uma relação direta entre o grau de perda de peso e a magnitude da redução do risco cardiovascular. Isso reforça a hipótese de que há algo além da perda de peso envolvido, afirmou Thomsen, destacando que a proteção oferecida pela substância parece ter mecanismos adicionais.
Resultados do estudo SELECT e aprovação da Anvisa
O estudo SELECT incluiu mais de 17 mil adultos com doença cardiovascular e índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 27, comparando o uso da semaglutida com um placebo. Publicações anteriores já haviam mostrado que o medicamento resultou em uma redução de até 20% nos eventos cardiovasculares em pacientes com obesidade e doenças cardiovasculares estabelecidas, sem diabetes. No entanto, esta é a primeira vez que se analisa que essa redução não está necessariamente ligada à quantidade de peso perdida.
De acordo com a Anvisa, os estudos apresentados mostram que, quando acompanhada de dieta hipocalórica e aumento da atividade física, a semaglutida reduziu significativamente a ocorrência desses eventos. A agência alerta que, a cada ano, estima-se que 400 mil brasileiros morram em decorrência de infarto ou AVC, destacando a importância da nova indicação.
Ampliação das indicações do Ozempic
Além da aprovação para o Wegovy, a Anvisa também ampliou a indicação para o uso do Ozempic. Agora, o medicamento pode ser utilizado no tratamento de pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica. Segundo a agência, estudos apresentados pelo fabricante mostraram que o uso do medicamento, em conjunto com a terapia padrão da doença, reduziu de maneira relevante a progressão da insuficiência renal e as mortes causadas por eventos cardiovasculares adversos maiores.
Mecanismo de ação ainda em investigação
Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores ainda não sabem ao certo qual é o mecanismo de ação que leva à proteção cardíaca promovida pela semaglutida. Thomsen explicou que o SELECT é o único estudo com resultados sobre a saúde cardiovascular até o momento, mas análises referentes a diabetes sugerem que pode haver diferenças entre os agonistas de GLP-1, indicando uma propriedade exclusiva da semaglutida.
Parece haver algo de único na semaglutida, que vai além da perda de peso, analisou a representante da Novo Nordisk. Ela ponderou que, dentro do estudo, foi observada uma redução média de 4% no risco cardiovascular a cada 5 kg perdidos e 5 cm a menos de circunferência da cintura. No entanto, entre pacientes que perderam peso, a incidência de eventos cardiovasculares foi semelhante, independentemente de terem reduzido 5% ou mais do peso corporal.
Outros benefícios da semaglutida
Além dos benefícios cardiovasculares e para perda de peso, a semaglutida também apresenta resultados positivos em outras áreas da saúde. Entre os principais, está a redução da gordura no fígado. Uma pesquisa recente mostrou que, ao final de 72 semanas, 63% dos participantes que usaram a semaglutida apresentaram redução da inflamação hepática. Nos Estados Unidos, o medicamento já é aprovado para tratamento de doença hepática grave, e no Brasil, a Novo Nordisk aguarda validação da Anvisa para essa indicação.
É normal haver presença de gordura no fígado, mas quando este índice chega a 5% ou mais, o quadro deve ser tratado o mais brevemente possível. Se não tratada corretamente, a gordura no fígado pode provocar, a médio e longo prazo, uma inflamação capaz de evoluir para quadros mais graves de hepatite gordurosa, cirrose hepática e até câncer no fígado.
Como a semaglutida funciona no organismo
A semaglutida é uma das principais substâncias de canetas injetáveis utilizadas para os tratamentos de diabetes tipo 2 e obesidade. Diferentemente de medicamentos mais recentes, como a tirzepatida, a semaglutida simula o funcionamento de somente um hormônio do corpo: o GLP-1. Naturalmente, esse hormônio é secretado principalmente pelas células do intestino, indo até o cérebro, no hipotálamo, onde estimula algumas células, diminuindo o apetite.
Contudo, o GLP-1 tem um tempo de vida curto, sendo rapidamente degradado pela enzima DPP4 produzida pelo organismo. No caso dos medicamentos que simulam a ação do hormônio, há uma resistência à ação da enzima DPP4, fazendo com que durem mais no corpo, reduzindo o apetite e proporcionando saciedade. É importante ressaltar que o medicamento precisa estar inserido em uma estratégia de tratamento e ser administrado junto ao acompanhamento de um médico.
Segundo o estudo STEP 1, publicado no The New England Journal of Medicine, a semaglutida 2,4 mg (Wegovy) promove uma perda de peso média de 17%, com um terço dos pacientes atingindo uma redução superior a 20%. A nova análise do estudo SELECT, no entanto, reforça que os benefícios cardiovasculares da substância representam um avanço significativo, independentemente da perda de peso alcançada.