Carlos Monteiro: o médico brasileiro que criou o conceito de alimentos ultraprocessados
Médico brasileiro criou conceito de ultraprocessados

O brasileiro que revolucionou a nutrição mundial

Há dezesseis anos, uma ideia explosiva começava a tomar forma nos corredores da Universidade de São Paulo. O epidemiologista Carlos Augusto Monteiro, então com 61 anos, propôs uma mudança radical na forma de classificar os alimentos. O que parecia um exercício acadêmico se transformaria em uma revolução científica que sacudiria políticas públicas de nutrição em todo o mundo.

Da desnutrição à obesidade: uma trajetória marcante

Filho de portugueses, Monteiro começou a trabalhar aos 13 anos e formou-se em medicina em 1972, já com forte inclinação para as causas sociais. Seus primeiros estudos focaram na desnutrição, um dos principais problemas de saúde pública do Brasil na época. "O que nós descobrimos é que não adiantava distribuir mais ferro e vitamina A para a população", relembra o pesquisador. "A desnutrição diminui quando se reduz a pobreza e as pessoas têm acesso a educação e a serviços básicos."

Mas na virada dos anos 1980 para os 1990, um novo desafio surgiu no horizonte brasileiro. "Começamos a observar o aumento da obesidade no Brasil, o que era impensável para um país que sempre sofreu com a desnutrição", recorda Monteiro. O paradoxo nutricional exigia novas ferramentas de análise.

O nascimento de um conceito transformador

Diante da falta de dados sobre doenças crônicas, Monteiro e sua equipe do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP realizaram a primeira pesquisa nacional sobre obesidade. A descoberta de dados históricos da década de 1970, mantidos sob sigilo durante a ditadura, confirmou a tendência preocupante.

As investigações revelaram um padrão alarmante: os brasileiros estavam cozinhando menos e consumindo mais alimentos prontos. Adquiriam menos ingredientes naturais e mais produtos cheios de aditivos, açúcar, gordura e sódio. A correlação entre esse padrão alimentar e o aumento de problemas de saúde era evidente.

A classificação Nova: quatro categorias que mudaram tudo

Foi assim que Monteiro desenvolveu sua proposta de classificação dos alimentos segundo o nível de processamento. Após refinamentos, o sistema ficou conhecido como "Nova" e dividiu os alimentos em quatro categorias:

  • Alimentos in natura
  • Ingredientes culinários (óleo, sal, açúcar de mesa)
  • Alimentos processados
  • Alimentos ultraprocessados

Sobre esta última categoria, Monteiro é direto: "São formulações químicas com pouco ou nenhum alimento e muitos aditivos para dar sabor de comida a algo que não é comida." A definição abrange desde pacotes de salgadinhos até biscoitos recheados, refrigerantes e macarrão instantâneo.

Impacto científico e resistência industrial

Hoje, numerosos estudos robustos associam o consumo regular de ultraprocessados a mais de trinta condições de saúde, incluindo:

  1. Diabetes
  2. Doenças cardiovasculares
  3. Alzheimer
  4. Depressão
  5. Alguns tipos de câncer

A proposta de Monteiro não está livre de críticas. Nutricionistas e engenheiros de alimentos questionam sua aplicabilidade prática, argumentando sobre a dificuldade de alimentar mais de 8 bilhões de pessoas sem alimentos industrializados. O epidemiologista rebate: "A causa básica da pandemia de obesidade está nas corporações de ultraprocessados", acusando as grandes empresas de patrocinar profissionais e fazer lobby junto aos governos.

Legado global e batalha contínua

Aos 77 anos, com estilo reservado mas falas incisivas, Carlos Monteiro viu sua classificação nortear o Guia Alimentar para a População Brasileira e ser adotada por universidades e periódicos científicos em todo o mundo. "A questão agora é que essas indústrias continuam lucrando, enquanto o resto da economia sai perdendo, com as pessoas adoecendo e morrendo mais cedo", afirma.

Único brasileiro na lista das cinquenta personalidades mais influentes do mundo do jornal The Washington Post, Monteiro continua sua batalha por regulamentações mais duras. O criador da categoria dos ultraprocessados tornou-se, paradoxalmente, seu maior crítico - uma posição que mantém em nome da saúde pública global.