Pedagogo em situação de rua de Bauru defende protagonismo na assistência social
Formado em pedagogia, músico, amante de livros e com um currículo que contrasta profundamente com a realidade das ruas, Rafael Andrade Campos, de 35 anos, fez história ao se tornar o primeiro morador em situação de rua de Bauru, no interior de São Paulo, a representar a cidade na Conferência Nacional de Assistência Social. O evento, realizado em Brasília em dezembro de 2025, reuniu gestores, profissionais e usuários do sistema para debater políticas públicas voltadas a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Da formação acadêmica à representação nacional
Nascido e criado em Bauru, Rafael concluiu a graduação em pedagogia em uma universidade particular da cidade através de uma bolsa do Prouni, utilizando sua nota do Enem. Sua trajetória sempre esteve ligada às humanidades e à comunicação, incluindo cinco anos tocando na Banda Municipal de Bauru na infância e um curso técnico em artes gráficas no Senai. No entanto, uma série de eventos pessoais o levou a uma situação de vulnerabilidade que culminou na vida nas ruas há poucos meses.
"O que me levou até isso começou na época da Covid-19. Perdi meu pai. Depois, no ano passado, minha mãe desapareceu. Tudo isso mexeu muito comigo. Eu moro sozinho, não tenho pai nem mãe próximos, fiquei meio perdido e acabei entrando nessa situação", relata Rafael em entrevista.
Uma voz ativa nas decisões
Antes da etapa nacional, Rafael já havia sido escolhido para representar Bauru na conferência estadual, realizada em Jaú. Ao ser atendido pelo albergue do Centro Espírita Amor e Caridade, assistentes sociais perceberam seu perfil e o incentivaram a participar das conferências, onde foi eleito através de votações municipais e estaduais.
A assistente social Jaqueline Fontanezzi, responsável pelo albergue, destaca a importância dessa representação: "A necessidade da população em situação de rua precisa ser dita pela própria população em situação de rua. E o Rafael tem esse perfil. Não poderia ter pessoa melhor para representar esse público".
Mudança na lógica do assistencialismo
Rafael defende uma transformação radical na abordagem da assistência social. Para ele, é fundamental deixar de tratar as pessoas em situação de rua como meras receptoras de ajuda "de cima para baixo" e passar a construir políticas públicas em nível de igualdade.
"As pessoas em situação de rua não podem ser só receptoras de ajuda. A gente precisa ser ouvido, participar das decisões. Quando o especialista olha 'de cima para baixo', é uma coisa. Mas, quando está no mesmo nível, a conversa muda completamente", afirma.
Proposta concreta: Fórum de Usuários
A principal proposta defendida por Rafael é a criação de um Fórum de Usuários, espaço onde pessoas atendidas pela assistência social possam opinar diretamente sobre os serviços oferecidos. A ideia é evitar desperdício de dinheiro público em ações que não resolvem os problemas reais de quem vive nas ruas.
"Enquanto algumas pessoas discutiam colocar ar-condicionado em unidades de atendimento, a gente estava pedindo computadores. O que mais precisamos é acesso a informação para procurar emprego, estudar, resolver documentos. Ouvindo a gente, o dinheiro pode ser melhor aplicado", explica Rafael.
E completa: "Não queremos só sobreviver. A gente quer participar, trabalhar, estudar e ser tratado como cidadão".
Experiência transformadora em Brasília
Na conferência nacional, o aspecto mais marcante para Rafael foi justamente ver usuários participando lado a lado com técnicos e gestores, a integração que ele tanto defende.
"Eu achei muito importante, porque não eram só especialistas falando. Tinha gente que vive isso na prática. Quando ouvem a gente de verdade, tudo muda. Eu também conheci pessoas de vários estados, realidades muito diferentes, pessoas autistas, neurodivergentes, comunidades ribeirinhas que nem têm acesso básico. Foi uma troca enorme de experiências", conta.
Para ele, estar em Brasília representou ao mesmo tempo um privilégio e uma responsabilidade: "Foi uma honra, mas também um compromisso. Eu pensei: 'Já que estou aqui, preciso fazer valer essa oportunidade e representar bem quem vive isso todo dia'".
Desafios e objetivos futuros
Entre os planos para o futuro, Rafael quer colocar em prática o Fórum de Usuários em Bauru e também reconstruir sua própria vida. "Minha primeira meta é cumprir essa responsabilidade no município. Pessoalmente, estou focado em passar em um concurso público na área da educação", diz.
Ele revela que, apesar do bom currículo, enfrenta preconceito ao tentar vagas em escolas particulares: "Quando mando currículo e veem que estou em situação de rua, muita gente pensa: 'Uma pessoa moradora de rua vai dar aula para meus filhos?'. Existe essa barreira. No concurso público, se eu passar na prova, não tem isso. É uma forma de quebrar o preconceito e recomeçar".
A história de Rafael Andrade Campos ilustra não apenas os desafios enfrentados por pessoas em situação de rua, mas também o potencial transformador quando essas vozes são incluídas ativamente na construção das políticas públicas que as afetam diretamente.