Fábrica em Campinas transforma vivências trans em produtos de afirmação de gênero
Há quase uma década, uma iniciativa pioneira em Campinas, no interior de São Paulo, está reescrevendo a narrativa sobre bem-estar e trabalho para pessoas trans. Fundada pelo influenciador trans Stevan Queiroz em 2017, a empresa surgiu da necessidade de criar acessórios de afirmação de gênero que fossem acessíveis no mercado brasileiro.
Produtos que transformam vidas
A fábrica produz itens essenciais para pessoas transmasculinas, como o binder, uma faixa especial que ajuda a achatar os seios, e o packer, dispositivo em formato de pênis que permite inclusive urinar em pé. Além disso, fabrica tapes, cuecas adaptadas, cintas e outros produtos de cuidado pessoal.
Stevan Queiroz identificou uma lacuna no mercado quando percebeu que esses produtos só estavam disponíveis no exterior, com custos proibitivos devido às taxas de importação e à valorização do dólar. "Ele foi, fez o packer, costurou, fez o binder, que eram produtos que não tinha aqui no Brasil", explica Matteo Anibal, gerente da empresa.
Mais do que produtos: histórias de acolhimento
Cada pacote enviado pelo correio carrega não apenas acessórios, mas também um profundo significado de representatividade. Os funcionários da fábrica são majoritariamente homens trans que encontraram no trabalho um espaço de pertencimento raro no mercado formal.
Erick Anton, de 27 anos, auxiliar de estoque, descreve sua experiência: "Quando eu cheguei aqui, me senti igual criança. Porque o valor emocional de eu ter entrado aqui, sabendo que é uma coisa tão importante... Eu fico muito emocionado". Para ele, participar do processo que proporciona felicidade a outros jovens trans é indescritível.
Representatividade em todos os níveis
A empresa atende clientes em todo o Brasil e em mais 14 países, mas seu impacto mais significativo talvez seja no ambiente de trabalho que criou. Arthur Henrique, supervisor de produção de 23 anos, destaca: "Para a gente que é trans, a gente sabe como é difícil o mercado de trabalho, a gente sabe que lá fora a gente não é bem visto".
Bruno Roberto, de 32 anos, que já enfrentou discriminação em empregos anteriores, afirma: "Acho que, pra mim, nenhum lugar que eu tenha passado na vida tem tanta importância igual aqui". Essa sensação de acolhimento contrasta com a realidade de muitos trans no Brasil, onde cerca de 80% já enfrentaram discriminação em processos seletivos.
Alívio da disforia de gênero
Os produtos fabricados ajudam a aliviar a disforia de gênero, que é a sensação de sofrimento provocada pela incongruência entre o corpo e a identidade com a qual a pessoa se identifica. Theodoro Amancio, de 30 anos, auxiliar de produção, compartilha: "Eu tenho muita disforia com o meu corpo. Dependendo dos locais, dos olhares das pessoas, [usar esses produtos] dá um alívio".
Denis Alan Pires Nunes, líder de estoque de 33 anos, expressa o cuidado que coloca em seu trabalho: "É tudo um cuidado mesmo. É como se estivesse cuidando de mim". Essa identificação com os produtos que um dia transformaram suas próprias vidas cria uma conexão profunda com o trabalho.
Desafios e resistência
Apesar do impacto positivo, a empresa enfrenta desafios significativos, especialmente nas redes sociais. Matteo Anibal relata: "Nosso maior desafio hoje é conseguir chegar nas pessoas de uma melhor forma. A gente sofre muito ataque". Comentários ofensivos e denúncias injustas limitam o alcance das publicações e afetam tanto a equipe quanto os clientes que buscam apoio.
"Às vezes a pessoa chega no nosso perfil querendo apoio, querendo ler ali uma coisa legal e ela acaba tendo que ler esses comentários maliciosos", lamenta Anibal, destacando a necessidade constante de moderação para proteger a comunidade.
Um modelo que inspira
O que começou como uma produção artesanal com apenas quatro modelos de packers hoje oferece 27 opções diferentes, além de diversos outros produtos. A empresa representa mais do que um negócio: é um espaço onde experiências pessoais se transformam em ferramentas de afirmação, onde o trabalho dignifica e onde cada produto carrega a promessa de mais conforto, dignidade e autoestima para quem os recebe.
Como resume Arthur Henrique: "Todo mundo tem o direito de se sentir bem ao se olhar no espelho". Nessa fábrica de Campinas, esse direito está sendo construído, peça por peça, por mãos que conhecem profundamente o significado de cada costura, cada embalagem, cada entrega.