Impeachment de ministros do STF: risco real? Cientista político aponta o 'maior problema' na Corte
Para Adriano Cerqueira, cientista político e professor do Ibmec, a perda gradual de apoio popular seria a preocupação principal. Controvérsias envolvendo o Supremo Tribunal Federal, como o caso Banco Master, reacenderam no Congresso discursos sobre impeachment de ministros da Corte.
O risco institucional e as condições para impeachment
Cerqueira pondera que, diferentemente dos impeachments presidenciais recentes, como os de Fernando Collor em 1992 e Dilma Rousseff em 2016, a eventual abertura de processos contra ministros do STF exigiria denúncias consistentes de imoralidade ou comportamento incompatível com o cargo. "Não seria um movimento puramente revanchista", afirma o analista.
Segundo ele, caso a oposição conquiste maioria no Senado e a Presidência da República, o risco institucional aumenta significativamente. Nesse cenário, denúncias associadas à conduta de ministros poderiam servir de base para a abertura de processos, deflagrando uma crise entre Executivo, Legislativo e Judiciário.
O desgaste da Corte e a perda de apoio popular
O professor avalia que o principal risco para o STF é a perda gradual de apoio popular. Notícias negativas recorrentes e questionamentos sobre a atuação de ministros contribuem para uma imagem pública fragilizada, o que abre espaço para pressões políticas mais duras.
Nesse contexto, Cerqueira cita o alerta feito pelo presidente da Corte, Edson Fachin, sobre a necessidade de contenção e autocontrole institucional. Para o analista, medidas internas de correção de conduta funcionariam como uma forma de autoproteção diante de um cenário político cada vez mais hostil.
A influência da eleição presidencial de 2026
O ambiente eleitoral tende a intensificar as tensões. Cerqueira observa que as pesquisas indicam uma largada mais difícil para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do que em 2022, quando venceu por margem estreita.
A combinação de uma eleição competitiva com um Congresso mais oposicionista amplia o risco de confrontos institucionais. Se a oposição vencer o Planalto e controlar o Legislativo, afirma o cientista político, o STF poderá se tornar alvo prioritário de iniciativas de controle externo e questionamentos formais sobre a atuação de seus ministros.
O papel das mobilizações de rua e da direita
A força das mobilizações de direita também entra no cálculo político. Cerqueira cita a caminhada liderada pelo deputado Nikolas Ferreira, que reuniu milhares de pessoas em Brasília e gerou grande engajamento nas redes sociais.
Para ele, trata-se de um exemplo de ação política orgânica, descentralizada e altamente eficiente em comunicação digital. Esses atos, embora tenham pautas específicas, como anistia aos condenados pelos ataques de 8 de janeiro, também canalizam insatisfações difusas da população.
As insatisfações populares estão relacionadas principalmente à economia, à carga tributária e à insegurança pública, segundo a análise de Cerqueira.
A pauta da oposição e a fragmentação política
Segundo Cerqueira, reduzir o discurso da oposição à defesa da anistia é um erro. Questões econômicas, custo de vida, serviços públicos e segurança aparecem de forma transversal nas mobilizações e tendem a ganhar centralidade ao longo do ano eleitoral.
Ele avalia que o governo tentará manter o foco no tema da democracia e da tentativa de golpe, enquanto a oposição buscará deslocar o debate para problemas concretos do cotidiano. "É aí que a direita acredita ter mais a oferecer", diz o analista.
Embora fragmentada, a oposição pode se mostrar eficaz. Cerqueira lembra que, nas eleições municipais de 2024, candidaturas múltiplas de direita no primeiro turno acabaram convergindo no segundo, enquanto a esquerda, em alguns casos, ficou fora da disputa final.
Para o cientista político, a tendência é que não haja "autofagia" entre candidatos de direita em 2026. "O foco será o enfrentamento ao governo", afirma, apostando em acordos de apoio mútuo no segundo turno.