Venezuela após Maduro: o desafio monumental de reconstruir uma nação em ruínas
Com uma inflação descontrolada e uma infraestrutura em colapso total, a Venezuela se encontra em um momento crítico após a queda do presidente Nicolás Maduro. A retomada econômica deste país, que sofreu uma das maiores contrações em tempos de paz da história moderna, depende fundamentalmente de estabilidade política e da injeção massiva de capital estrangeiro. Investidores globais já demonstram interesse em uma oportunidade avaliada em até 500 bilhões de dólares ao longo de uma década, mas os obstáculos são profundos e multifacetados.
O cenário econômico devastador e a busca por investimentos
O produto interno bruto (PIB) venezuelano encolheu impressionantes 80% entre 2013 e 2020, e em 2025, o país praticamente não cresceu, com uma inflação girando em torno de 500% e uma depreciação do bolívar que chegou a 800%. A infraestrutura financeira é mínima, com apenas o banco espanhol BBVA tendo presença significativa no varejo, e mesmo assim enfrentando dificuldades para repatriar dividendos devido aos controles de capital. Neste contexto, figuras como Charles Myers, presidente da Signum Global Advisors, têm trabalhado para atrair investidores dispostos a correr riscos na economia venezuelana, com chamadas de todo o mundo esgotando vagas em delegações após a captura de Maduro.
O petróleo como base e os limites da recuperação
A primeira resposta para financiar a reconstrução sempre aponta para as vastas reservas de petróleo da Venezuela, que representam um quinto de todo o estoque mundial conhecido. No entanto, esta riqueza tem sido estrangulada por má administração, subinvestimento e sanções americanas. Um acordo com Washington para a compra de 30 a 50 milhões de barris abriu uma válvula de escape, permitindo que a Chevron despachasse navios-tanque para os portos venezuelanos. Aumentar a produção de petróleo, contudo, não é suficiente para resolver a grave penúria da população, com mais de 8 milhões de pessoas tendo emigrado e indicadores sociais estagnados ou piorando.
Pré-condições para a estabilidade e a desconfiança dos investidores
Para criar um ambiente saudável para os negócios, especialistas concordam que são necessárias três pré-condições: estabilidade política, segurança doméstica e um novo arcabouço regulatório. O governo americano, sob a administração Trump, parece buscar estabilidade ao manter o regime praticamente intocado, exceto pela remoção de Maduro. No entanto, mudanças legislativas, como uma nova lei de combustíveis fósseis sugerida pela nova presidente Delcy Rodríguez, podem desestabilizar o cenário. A desconfiança dos investidores é palpável, com a Exxon lembrando que seus ativos foram nacionalizados duas vezes, apesar das leis da época.
Reações do mercado e o longo caminho pela frente
Os títulos da dívida venezuelana e da PDVSA valorizaram-se entre 35% e 40% após a queda de Maduro, sinalizando otimismo do mercado. Internamente, porém, houve uma corrida para moedas estrangeiras, elevando o dólar paralelo de 500 para 900 bolívares. A convergência entre as taxas oficial e paralela será um termômetro crucial para a estabilização econômica. Rodrigo Naranjo, do VIPCapital, estima que levará pelo menos um ou dois anos para que empresas venezuelanas atinjam valores de mercado atraentes para grandes investidores institucionais. A produção de petróleo pode aumentar até 50% em doze meses, mas voltar ao pico de 1998 exigirá muito mais tempo, com impactos graduais no emprego.
Para os venezuelanos que permaneceram no país e para os milhões que emigraram, a era pós-Maduro começou, mas a reconstrução, se vier, será medida em anos, não em meses, exigindo gestos firmes e acordos bilaterais para demonstrar que a mudança é real e sustentável.