Acordo UE-Mercosul é aprovado: bloco de US$ 22,4 trilhões desafia Trump
UE e Mercosul aprovam acordo de livre comércio histórico

Em um movimento estratégico que reafirma o multilateralismo em meio a tensões geopolíticas, o Parlamento Europeu aprovou, na sexta-feira, 9 de janeiro de 2026, o ambicioso acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul. A ratificação ocorre em um contexto marcado pela ação militar dos Estados Unidos na Venezuela e pelas políticas protecionistas do governo Donald Trump, posicionando o novo bloco econômico como um antídoto ao unilateralismo.

Um marco geopolítico e econômico

O acordo, cujas negociações se estenderam por mais de 25 anos, foi assinado em um momento de grande turbulência internacional, apenas um dia antes de completar uma semana do sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cília Flores, por tropas de elite americanas. O casal foi levado para ser acusado em corte de Nova Iorque, em um ato descrito como pirataria explícita pela imprensa dos EUA.

O novo bloco abrange 720 milhões de consumidores e soma um Produto Interno Bruto (PIB) conjunto de US$ 22,4 trilhões, situando-se entre as economias dos Estados Unidos (US$ 29 trilhões) e da China (US$ 19 trilhões em paridade de poder de compra). A imprensa americana, incluindo veículos como The New York Times e Wall Street Journal, destacou o pacto como um contraponto à coerção e às tarifas punitivas adotadas por Washington.

Os ganhos do Brasil e os desafios da negociação

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um entusiasta incansável do acordo, perdeu por menos de um mês a chance de assiná-lo em dezembro de 2025, quando o Brasil ocupava a presidência rotativa do Mercosul. O atraso ocorreu devido à resistência de última hora da primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, pressionada por agricultores de seu país que exigiam mais subsídios.

A posição da Itália, no entanto, tornou-se crucial. Como detentora da terceira maior população da UE, seu voto favorável se juntou ao da Alemanha e da Espanha, formando uma maioria de 21 países no Parlamento Europeu. A França, cujo presidente Emmanuel Macron cedeu a pressões de radicais de direita, votou contra. A Bélgica se absteve.

Para o agronegócio brasileiro, o acordo consolida uma trajetória de crescimento espetacular. Desde o início das negociações, em 1999, a produção de grãos no cerrado praticamente triplicou. A transformação da soja e do milho em ração animal fez o Brasil superar a França e os Estados Unidos, tornando-se o maior exportador mundial de carnes bovina e de frango. A China é o maior consumidor.

Detalhes do acordo e perspectivas futuras

O tratado, a ser formalmente assinado em Assunção no sábado, 17 de janeiro, estabelece um cronograma gradual para a eliminação de tarifas. O Mercosul zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em um prazo de até 15 anos. Em contrapartida, a União Europeia eliminará tarifas sobre 95% dos produtos do Mercosul em até 12 anos. Os efeitos plenos são esperados para a próxima década.

Imediatamente, com vigência plena prevista para 2027 – ano que também verá a entrada em vigor da Reforma Tributária brasileira –, haverá tarifa zero para diversos produtos industriais europeus, como máquinas, equipamentos, automóveis, autopeças e produtos químicos.

Para proteger os agricultores europeus, o acordo fixa cotas de importação para produtos sensíveis, como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol. Essas cotas equivalem a cerca de 3% do mercado da UE e 9% do brasileiro, com previsão de crescimento ao longo do tempo.

A União Europeia já é o maior investidor estrangeiro no Brasil, com destaque para os Países Baixos, Espanha, França e Alemanha. O acordo abre avenidas para novos investimentos e parcerias, especialmente em setores como café (onde o Brasil pode passar a exportar o produto embalado e torado), celulose, etanol, frutas e sucos.

Soberania, direito internacional e o cenário doméstico

Além do impacto econômico, o acordo carrega um forte simbolismo político. Ele representa uma clara defesa do diálogo e do direito internacional, em contraste com a postura intervencionista anunciada pelos EUA, que declararam o Hemisfério Ocidental como sua área de influência.

No plano interno, a aprovação do tratado foi celebrada pelo governo Lula, que na mesma semana comemorou a derrota final dos golpistas do 8 de janeiro de 2023. O presidente também vetou a lei de dosimetria que pretendia aliviar as penas dos condenados, incluindo a do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O episódio serve como um alento democrático e um contraponto ao cenário de fake news e desinformação, exemplificado pela recente campanha de difamação contra o Banco Central durante a liquidação do Banco Master. O acordo UE-Mercosul se ergue, portanto, não apenas como um marco comercial, mas como uma afirmação de valores compartilhados de soberania, cooperação e respeito às regras multilaterais.