Premiê da Bélgica alerta: Trump 'ultrapassou limites' e Europa está em encruzilhada histórica
Trump 'ultrapassou limites', diz premiê belga sobre ameaças à Groenlândia

Premiê belga faz alerta contundente sobre postura de Trump e futuro das relações transatlânticas

O primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever, fez declarações duras nesta terça-feira, 20 de janeiro de 2026, durante sua participação no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. O líder belga afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cruzou "linhas vermelhas" inaceitáveis e que a Europa se encontra em uma encruzilhada histórica que pode determinar o fim de décadas de cooperação atlântica.

Contexto das críticas: ameaças à Groenlândia e tensões na Otan

As declarações de De Wever ocorrem em meio a crescentes tensões internacionais provocadas pelas reiteradas ameaças de Trump contra a Groenlândia, território autônomo administrado pela Dinamarca. O presidente americano tem afirmado que os Estados Unidos assumiriam o controle da ilha "de um jeito ou de outro", justificando que a região rica em recursos naturais seria essencial para a segurança nacional norte-americana.

Trump chegou a recusar-se a descartar o uso de força militar para tomar a Groenlândia, um território que conta com proteções da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), já que a Dinamarca é membro da aliança. Nas últimas semanas, o líder americano intensificou sua retórica agressiva, anunciando inclusive tarifas de 10% sobre importações de vários países europeus, incluindo Dinamarca, Noruega e Alemanha, até que seu governo seja autorizado a comprar a ilha ártica.

Discurso firme em Davos: "Vocês estão ultrapassando limites"

Durante sua intervenção no Fórum Econômico Mundial, Bart De Wever foi categórico em sua avaliação da situação:

"Até agora, tentamos apaziguar o novo presidente na Casa Branca. Fomos muito lenientes, inclusive com as tarifas. Fomos lenientes na esperança de obter seu apoio para a guerra na Ucrânia. Mas agora tantas linhas vermelhas estão sendo cruzadas que você tem que escolher entre o seu amor-próprio. Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo miserável é outra bem diferente", afirmou o premiê belga.

De Wever acrescentou: "Se você recuar agora, vai perder sua dignidade. E essa é provavelmente a coisa mais preciosa que se pode ter em uma democracia." O primeiro-ministro revelou ainda que Trump se reunirá com o rei Filipe da Bélgica na quarta-feira, 21 de janeiro, mas advertiu que o encontro "terá um caráter diferente do que tínhamos planejado" e servirá para transmitir uma mensagem clara: "vocês estão ultrapassando limites."

Alerta sobre o fim de uma era e referência a Gramsci

O líder belga fez um alerta sombrio sobre as possíveis consequências da atual crise nas relações transatlânticas:

"Ou permanecemos unidos ou permanecemos divididos, e se permanecermos divididos, será o fim de uma era, de 80 anos de atlanticismo, que estará realmente chegando ao fim", declarou De Wever.

Em seguida, o premiê citou o filósofo italiano Antonio Gramsci para ilustrar a gravidade do momento: "E você sabe, como disse Gramsci, 'se o velho está morrendo e o novo ainda não nasceu, você vive em uma época de monstros', e cabe a ele decidir se quer ser um monstro – sim ou não."

Posicionamento anterior e críticas à postura europeia

Antes de seu discurso em Davos, Bart De Wever já havia expressado preocupações similares em entrevista à emissora belga VRT, onde afirmou: "Nós, como Europa, devemos dizer a Trump: até aqui e não mais. 'Recue', ou iremos 'até o fim'."

O primeiro-ministro reconheceu que algumas críticas de Trump sobre os gastos europeus com defesa têm fundamento, mas ponderou: "ameaçar os aliados da Otan com intervenção militar em território da Otan é algo tão sem precedentes que estamos realmente nos aproximando de um ponto de ruptura."

Contexto adicional: carta a líder norueguês e Prêmio Nobel

As tensões ganharam uma dimensão adicional com a revelação, pelo jornal norueguês VG, de uma carta enviada por Trump ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Store. No documento, o presidente americano renovou sua intenção de tomar o controle da Groenlândia e vinculou explicitamente suas ameaças ao fato de não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz.

Trump escreveu: "Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por eu ter impedido mais de oito guerras, não me sinto mais obrigado a pensar apenas em paz", acrescentando que agora pode "pensar no que é bom e apropriado" para os Estados Unidos.

O presidente americano fez campanha intensa para ganhar o Prêmio da Paz do ano passado, que foi concedido a María Corina Machado, líder da oposição venezuelana. Curiosamente, ela recebeu o prêmio em Oslo no mês passado, mas o dedicou a Trump e, na semana passada, presenteou-o com a medalha do Nobel.

Implicações para o futuro das relações internacionais

As declarações de Bart De Wever refletem uma crescente preocupação entre líderes europeus sobre a direção que as relações com os Estados Unidos estão tomando sob a administração Trump. O discurso do premiê belga em Davos representa um dos posicionamentos mais firmes e publicamente críticos de um líder europeu em relação às recentes ações do governo americano.

A situação coloca a Europa diante de um dilema estratégico fundamental: como responder às crescentes pressões e ameaças de um aliado histórico sem comprometer os princípios de soberania e cooperação que têm guiado as relações transatlânticas por oito décadas. As próximas semanas serão cruciais para determinar se a atual crise representa um ponto de inflexão permanente ou um momento passageiro de tensão nas relações entre Europa e Estados Unidos.