Trump Reafirma Interesse na Groenlândia e Ataca Aliados Europeus em Davos
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, atravessou o Oceano Atlântico nesta quarta-feira (21) para, a partir da cidade suíça de Davos, lançar críticas contundentes aos países europeus e à aliança transatlântica estabelecida após a Segunda Guerra Mundial. Em discurso no Fórum Econômico Mundial, o chefe da Casa Branca reafirmou seu desejo de ver a Groenlândia, um território autônomo da Dinamarca, incorporado aos Estados Unidos, apesar da rejeição do governo dinamarquês e de outros membros da União Europeia.
Retórica de Conflito e um Recuo Estratégico
Durante sua fala, Trump minimizou a questão como um pequeno pedido, chamou a Dinamarca de ingrata e argumentou que uma aquisição não representaria uma ameaça à Otan. Ele criticou a Europa por não estar indo na direção certa, atacou o foco em energias renováveis e afirmou que a migração em massa feriu os países do continente. Horas depois, no entanto, veio um recuo parcial: após um encontro com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, Trump anunciou que definiram o quadro geral de um futuro acordo em relação à Groenlândia e cancelou novas tarifas comerciais contra aliados europeus.
Abalo à Noção de Ocidente e Novas Realidades Geopolíticas
A insistência na anexação da Groenlândia representa um forte abalo à própria noção de Ocidente, segundo analistas. Vinicius Vieira, professor de relações internacionais da FAAP, explica à DW que isso sinaliza o potencial fim de uma categoria política que serviu de baliza para decisões internacionais. Ele observa que a política externa de Trump trata a Europa, na prática, como um quintal dos Estados Unidos, similar à histórica relação dos EUA com a América Latina, o que pode inaugurar uma nova era de subordinação europeia.
Neusa Bojikian, pesquisadora da Unicamp e do INCT-INEU, reforça que ao tratar a aquisição de um território europeu como legítima, Trump rompe com princípios centrais das relações transatlânticas. Isso é particularmente preocupante para a Europa, que se apoiava em regras e instituições como amortecedores de conflitos, diz ela, destacando que aliados históricos agora testemunham que nenhum país está resguardado com base no direito internacional.
Palco para Extremismos e Riscos para o Brasil
Vieira pontua que, ao criticar migração e energias renováveis, Trump dá vazão a posições racistas da extrema direita mundial, incluindo a teoria da grande substituição. Bojikian acrescenta que o ataque à transição energética europeia tenta desqualificar a agenda climática global, atuando como fator de desestabilização.
Para o Brasil, a disposição de Trump de pressionar a Europa envia um sinal alarmante. Vieira avalia que países ricos em recursos ou com territórios estratégicos, como o Brasil, podem se tornar alvos. Em meios militares brasileiros, circulam temores relacionados às ilhas marítimas brasileiras, incluindo Fernando de Noronha, e à Base Aérea de Natal, observa, lembrando que, durante a Segunda Guerra, os EUA tinham planos de ocupar partes do Nordeste para assegurar borracha. Isso reduz a margem de manobra do Brasil em estratégias de desenvolvimento que combinem crescimento, inclusão e transição ecológica.
Efeito Positivo para o Mercosul e uma Nova Ordem Global
Por outro lado, Bojikian vê um aspecto positivo: as ameaças de Trump forçam a Europa a buscar alternativas, como a retomada do acordo com o Mercosul, parte de uma estratégia defensiva de diversificação. O presidente do Paraguai, Santiago Peña, agradeceu a Trump em entrevista à DW, dizendo que as tarifas assustaram muitos países europeus e impulsionaram o acordo.
Em suma, as negociações sobre a Groenlândia não são apenas sobre um território, mas simbolizam uma reconfiguração profunda das alianças globais, com impactos diretos e indiretos que ecoam desde a Europa até o Brasil, em um mundo onde as regras parecem estar sendo reescritas de forma seletiva e disruptiva.