Governo Trump muda estratégia após morte de enfermeiro em Minneapolis e envia 'czar da fronteira'
Trump muda tom após morte em Minneapolis e envia 'czar da fronteira'

Governo Trump altera abordagem após morte controversa em operação de imigração

A administração do presidente americano Donald Trump realizou uma mudança significativa em sua estratégia de comunicação após o incidente fatal envolvendo agentes federais em Minneapolis. Inicialmente, o governo recorreu à sua tática habitual de negar acusações e atacar opositores quando o enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos, foi morto a tiros na manhã de sábado, 24 de janeiro.

Vídeos contradizem versão oficial e forçam mudança de postura

Em menos de 24 horas, com a circulação online de diversos vídeos que registravam os tiros disparados por agentes do ICE (Serviço de Imigração e Controle Alfandegário dos Estados Unidos), tornou-se evidente que o governo Trump estava completamente desalinhado com a opinião pública. As imagens permitiam que os cidadãos americanos testemunhassem com seus próprios olhos os eventos que contradiziam a narrativa inicial das autoridades federais.

Desde então, tanto o governo quanto o próprio presidente modificaram sua abordagem, transferindo a responsabilidade pelo ocorrido para o Partido Democrata e reduzindo a ênfase nas ações do enfermeiro falecido. Os democratas, por sua vez, intensificaram suas críticas à política de deportação em massa implementada por Trump e às táticas agressivas empregadas pelo ICE.

Conflito político ameaça paralisação do governo

Esta disputa política elevou as tensões em Washington a um ponto que pode resultar em uma nova paralisação do governo federal na sexta-feira, 30 de janeiro. O vice-procurador-geral dos Estados Unidos, Todd Blanche, descreveu a situação atual como um verdadeiro barril de pólvora político, reconhecendo os riscos substanciais presentes no cenário.

A resposta inicial do governo Trump à morte de Pretti foi caracterizada por acusações diretas e contundentes. Autoridades federais retrataram o enfermeiro como um terrorista doméstico determinado a derramar sangue. A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirmou que Pretti desejava causar danos e estava empunhando uma arma durante o confronto.

Família e evidências visuais contestam narrativa oficial

Essa versão dos fatos foi categoricamente refutada pelos vídeos que registraram os momentos finais de Pretti. As imagens mostram claramente o enfermeiro filmando agentes do ICE com seu celular e auxiliando uma mulher que havia sido empurrada ao chão, antes de ambos serem atingidos por spray de pimenta. Em nenhum momento as gravações mostram Pretti portando qualquer tipo de arma quando foi imobilizado no solo.

Os pais do enfermeiro emitiram um comunicado emocionado no domingo, 25 de janeiro, onde pediram que a verdade viesse à tona e classificaram as alegações do governo como mentiras repugnantes e nojentas. A análise realizada pelo BBC Verify, departamento da BBC especializado em checagem de dados e imagens, examinou sete vídeos diferentes do momento em que agentes derrubaram Alex Pretti e confirmou que, segundo essas evidências visuais, ele não estava segurando nenhuma arma.

Republicanos expressam desconforto com abordagem federal

O Departamento de Segurança Interna dos EUA mantém que Pretti portava uma pistola semiautomática de 9 mm e dois carregadores de munição. A polícia local de Minneapolis confirmou que o enfermeiro era proprietário legal de uma arma, o que é permitido pela legislação de Minnesota para cidadãos com autorização adequada.

Entretanto, mesmo dentro do Partido Republicano, vozes importantes começaram a expressar crescente desconforto com a forma como o governo Trump estava lidando com a situação. O governador de Vermont, Phil Scott, classificou os esforços federais em Minnesota como um fracasso completo de coordenação das práticas aceitáveis de segurança pública.

Tom Homan é enviado como 'czar da fronteira' para Minnesota

Desde a noite de domingo, observou-se uma mudança perceptível no tom adotado pelo governo Trump. O secretário de Assuntos de Veteranos, Doug Collins, apresentou condolências à família Pretti, enquanto o presidente publicou uma mensagem em sua rede social Truth Social descrevendo a morte como trágica e atribuindo o episódio ao caos provocado pelos democratas.

Na manhã de segunda-feira, 26 de janeiro, Trump anunciou que estava enviando Tom Homan, seu czar da fronteira, para Minnesota com o objetivo de liderar as forças de segurança no estado. Homan, que anteriormente comandou deportações durante a administração do democrata Barack Obama, é visto como um operador mais comedido e politicamente sensível, menos propenso às declarações bombásticas que caracterizaram a resposta inicial ao incidente.

Pesquisas mostram desaprovação pública das políticas de imigração

Embora a nomeação de Homan possa não representar necessariamente uma mudança substantiva na política de imigração do governo Trump, ela indica claramente uma alteração na apresentação pública dessa política. Esta mudança ocorre em um contexto onde pesquisas de opinião mostram deterioração significativa no apoio público à forma como a ofensiva migratória está sendo conduzida.

Uma pesquisa da CBS realizada antes do tiroteio do fim de semana revelou que 61% dos entrevistados consideram que o ICE está sendo duro demais ao abordar e deter pessoas, enquanto 58% desaprovam a condução da política de imigração como um todo. Estes números preocupantes explicam em parte a mudança de estratégia observada na administração Trump.

Possível abertura para diálogo entre governo federal e autoridades locais

O procurador-geral de Minnesota, Keith Ellison, ao ser questionado sobre o envolvimento de Tom Homan, sugeriu que ele poderia abrir um novo caminho de diálogo com o governo federal. Não quero descartar a possibilidade de que posições razoáveis prevaleçam, afirmou Ellison, acrescentando cautelosamente que estamos exatamente aqui porque o governo federal adotou posições injustificáveis.

Outro sinal potencial de abertura para o diálogo ocorreu quando Trump anunciou, na segunda-feira, que havia conversado com o governador de Minnesota, Tim Walz, do Partido Democrata. O presidente descreveu a ligação como muito boa e afirmou que parecíamos estar em sintonia, representando um esfriamento significativo após semanas de trocas ásperas entre as duas lideranças.

Democratas ameaçam bloquear financiamento do DHS

Apesar desses gestos de aproximação, os democratas em Washington enfrentam pressão crescente para traçar uma linha clara contra a retórica e as políticas do governo Trump. Os senadores democratas anunciaram que bloquearão medidas que proponham mais financiamento para o Departamento de Segurança Interna dos EUA, do qual o ICE faz parte, o que pode provocar uma paralisação parcial do governo na noite de sexta-feira.

O senador pelo Havaí, Brian Schatz, declarou firmemente: Vou votar contra qualquer financiamento para o DHS até que controles adicionais sejam implementados para responsabilizar o ICE. Esses episódios repetidos de violência em todo o país são ilegais, desnecessariamente escalonados e tornam todos nós menos seguros.

Riscos políticos para ambas as partes em jogo elevado

Esta iniciativa democrata, no entanto, envolve riscos políticos consideráveis. No outono passado, os democratas provocaram um fechamento recorde do governo por causa de subsídios à saúde, mas acabaram recuando sem obter resultados expressivos. Eles também tendem a agir com cautela ao avançar demais em temas como imigração e segurança pública, áreas onde tradicionalmente registram desempenho fraco nas pesquisas de opinião.

No momento atual, tanto republicanos quanto democratas tentam navegar cuidadosamente por uma situação que se tornou verdadeiramente explosiva. Em jogo está não apenas a percepção pública sobre a política migratória de Trump, mas também um tema central que contribuiu decisivamente para seu retorno à Casa Branca na eleição presidencial de 2024. A nomeação de Tom Homan para Minneapolis representa uma tentativa de recalibrar essa narrativa em meio a crescentes críticas e evidências contraditórias.