Trump oficializa Conselho da Paz com convite a Lula e gera polêmica internacional
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou oficialmente nesta quinta-feira, 22 de janeiro, seu chamado "Conselho da Paz", uma estrutura inédita com a qual seu governo pretende supervisionar diretamente os processos de paz na Faixa de Gaza e em outras regiões conflituosas ao redor do mundo. A iniciativa conta com a participação convidada de outros 60 líderes mundiais, selecionados pessoalmente por Trump, em um movimento que já está sendo analisado com cautela por especialistas e diplomatas.
Lula entre os convidados e o silêncio do Planalto
Entre os nomes destacados na lista de convidados está o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que recebeu o convite formal do norte-americano para integrar este conselho. No entanto, até o momento, o governo brasileiro ainda não emitiu uma resposta oficial, mantendo-se em uma postura de avaliação cuidadosa dos termos e implicações da proposta. Fontes próximas ao Palácio do Planalto indicam que a decisão de Lula dependerá de uma análise minuciosa dos objetivos, dos integrantes confirmados e, principalmente, dos custos envolvidos para o Brasil.
Uma possível ameaça ao multilateralismo da ONU
A proposta de Trump não está sendo recebida apenas como uma nova ferramenta diplomática. Parte significativa da comunidade internacional e da diplomacia global enxerga nesta iniciativa uma tentativa clara de enfraquecer o papel tradicional da Organização das Nações Unidas (ONU) na mediação de conflitos e na manutenção da paz mundial. Críticos afirmam que o Conselho da Paz poderia funcionar como uma espécie de "Nações Unidas paralela", sob a influência direta dos Estados Unidos.
"É uma 'Nações Unidas de Trump' que ignora os princípios fundamentais da Carta da ONU", declarou um diplomata europeu que preferiu não se identificar, em entrevista a veículos internacionais. A preocupação com o enfraquecimento do sistema multilateral é compartilhada por altos funcionários da ONU, embora a organização tenha evitado comentários diretos sobre o plano de Trump.
A defesa da ONU e as críticas de Trump
Em resposta implícita às movimentações, Annalena Baerbock, presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, reforçou a importância da instituição em uma declaração à Sky News. "A organização é a única instituição com capacidade moral e legal para reunir todas as nações, grandes ou pequenas. E se questionarmos isso... retrocedemos para tempos muito, muito sombrios", alertou Baerbock.
Esta postura contrasta fortemente com as críticas recorrentes de Trump a instituições multilaterais, especialmente a ONU. O presidente norte-americano frequentemente questiona a eficácia, os custos elevados e a falta de responsabilidade desses organismos, argumentando que, em muitas ocasiões, eles não servem adequadamente aos interesses estratégicos dos Estados Unidos.
Especialistas apontam riscos e falhas na proposta
Para Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), a estrutura proposta por Trump apresenta uma série de falhas preocupantes e concentra um poder excessivo em uma única liderança: a do próprio presidente dos Estados Unidos.
Stuenkel destaca que, ao exigir uma contribuição financeira de US$ 1 bilhão de cada país interessado em obter um assento permanente no conselho – e ao afirmar que administraria esses recursos diretamente –, Trump levanta sérias dúvidas sobre transparência e controle democrático das decisões estratégicas. "O arranjo reflete uma abordagem personalista e unilateral, concentrando poder na figura de Trump, que teria influência decisiva e poder de veto sobre o funcionamento do órgão", afirma o acadêmico.
Além disso, o professor menciona os questionamentos sobre possíveis conflitos de interesse, já que Trump nomeou seu próprio genro, Jared Kushner, e o conselheiro Steve Witkoff para fazer parte da estrutura do conselho. Ambos possuem interesses empresariais conhecidos na região de Gaza, o que poderia comprometer a imparcialidade das ações.
O contexto humanitário em Gaza
Enquanto o debate político se intensifica, a ONU continua alertando que a situação humanitária na Faixa de Gaza permanece dramática e crítica, independentemente da criação de novos fóruns ou conselhos políticos. A população local enfrenta escassez de alimentos, medicamentos e infraestrutura básica, em um cenário que exige ações concretas e imediatas, além de discussões diplomáticas.
O lançamento do Conselho da Paz por Trump, portanto, ocorre em um momento de extrema sensibilidade, colocando em xeque não apenas os mecanismos tradicionais de governança global, mas também a própria eficácia das respostas internacionais a crises humanitárias prolongadas.