O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou uma nova ameaça comercial contra a França, prometendo aplicar tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes importados do país europeu. A medida, anunciada nesta terça-feira (20/01/2026), é uma tentativa clara de pressionar o presidente francês, Emmanuel Macron, a aderir à iniciativa de Trump chamada "Conselho da Paz".
Chantagem comercial por adesão política
A proposta do Conselho da Paz tem como objetivo declarado resolver conflitos globais, começando por Gaza. No entanto, a iniciativa é vista com ceticismo por aliados e levanta questões sobre o papel tradicional das Nações Unidas. Uma fonte próxima a Macron já havia indicado que o líder francês pretende recusar o convite para participar do grupo.
A reação de Trump foi direta e contundente. Questionado sobre a possível recusa de Macron, ele declarou: "Ele disse isso? Bem, ninguém quer ele porque ele vai sair do cargo muito em breve". Em seguida, fez a ameaça tarifária: "Vou colocar uma tarifa de 200% sobre os vinhos e champanhes dele, e ele vai entrar, mas não precisa participar".
Impacto bilionário e reação do setor
A ameaça tem peso econômico considerável. Atualmente, os vinhos e destilados da União Europeia já enfrentam uma tarifa de 15% no mercado americano. Os Estados Unidos são o maior mercado para os produtores franceses, com exportações no valor de 3,8 bilhões de euros em 2024.
Laurence Whyatt, chefe de pesquisa de bebidas europeias do Barclays, alertou para as consequências: "O fato de estarmos recebendo mais ameaças vai dificultar o investimento na indústria... Eles terão que ser mais reservados, guardar um pouco de dinheiro, não investir". O nervosismo do mercado foi imediato: as ações do conglomerado de luxo LVMH, dono de marcas como Moet & Chandon, caíram 2% nas negociações iniciais.
O setor ainda se recupera de medidas anteriores. Gabriel Picard, presidente do lobby de exportação FEVS, revelou que as atividades com os EUA caíram entre 20% e 25% na segunda metade de 2023 devido a tensões comerciais passadas.
Resposta firme da França e da UE
A reação oficial francesa foi de indignação. Um assessor do Palácio do Eliseu afirmou que ameaças tarifárias para influenciar política externa são "inaceitáveis". A ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, foi ainda mais enfática ao canal TF1: "É brutal, é feito para nos quebrar, é uma ferramenta de chantagem. Tudo isso é revoltante".
Ela reforçou que a Europa tem ferramentas para responder e deve assumir a responsabilidade, impedindo uma escalada. A União Europeia já avalia uma resposta tarifária de 93 bilhões de euros e pode acionar seu "Instrumento Anticoerção" para retaliar, especialmente após outra ameaça de Trump relacionada à Groenlândia e a um grupo de estados europeus.
O plano do Conselho da Paz também é visto com cautela por governos ao redor do mundo. Um rascunho de carta da administração Trump, visto pela Reuters, exige que os países-membros contribuam com 1 bilhão de dólares em dinheiro se quiserem que sua filiação dure mais de três anos.
Enquanto isso, os cronogramas dos dois líderes se cruzam em Davos. Macron deve deixar o fórum nesta terça-feira, antes da chegada de Trump na quarta-feira, sem planos de um encontro. A tensão transatlântica, com o vinho francês no centro, atinge um novo patamar.