Ex-presidente colombiano Ernesto Samper analisa tensões EUA-Venezuela e papel da China
Samper: China na América Latina é o que incomoda Trump

O ex-presidente da Colômbia Ernesto Samper Pizano ofereceu uma análise profunda sobre as recentes tensões geopolíticas na América Latina, com foco especial na intervenção dos Estados Unidos na Venezuela. Em entrevista exclusiva, Samper argumenta que o fator determinante por trás das ações americanas não é o petróleo ou minerais estratégicos, mas sim a crescente influência da China na região.

A China como motor das tensões regionais

Samper avalia que a presença positiva da China na América Latina é o grande elemento que está incomodando a administração do ex-presidente americano Donald Trump. "Acredito que o que está incomodando Trump ou que ele quer exorcizar é a presença positiva da China na América Latina", declarou o ex-mandatário colombiano. Ele destacou que a China se tornou o principal parceiro comercial de nações como Brasil, Chile e Peru, além de realizar pesados investimentos em infraestrutura ao longo da última década.

"Os EUA estão muito nervosos porque o que a China fez foi simplesmente percorrer o caminho que eles deixaram aberto", completou Samper, sugerindo que os americanos negligenciaram sua relação com a região, permitindo que os chineses preenchessem esse vazio estratégico.

A situação venezuelana e o papel de Delcy Rodríguez

Samper conviveu de perto com Delcy Rodríguez, atual presidente em exercício da Venezuela, entre 2014 e 2017, quando ocupava o cargo de secretário-geral da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Na época, Rodríguez era ministra das Relações Exteriores sob o governo de Nicolás Maduro.

O ex-presidente colombiano descreve Rodríguez como uma pessoa "competente" e "preparada", com formação em universidades inglesas e francesas, além de dominar vários idiomas. "[Delcy] tem uma maneira de ser que lhe permite ter muito diálogo com todos os setores", afirmou Samper, destacando seu apoio em setores empresariais, trânsito entre militares e contatos com facções da oposição venezuelana.

Samper acredita que Rodríguez poderia conduzir um processo de transição na Venezuela, desde que os Estados Unidos aceitem desbloquear a economia venezuelana e o governo provisório liberte presos políticos da oposição. "A única saída que a Venezuela tem neste momento é aquela para a qual de alguma maneira se está abrindo caminho", avaliou.

Críticas à intervenção americana e lições históricas

O ex-presidente expressou grande indignação na América Latina pela intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, ocorrida em 3 de janeiro, que resultou na deposição e detenção de Nicolás Maduro. Samper lembrou que, embora os EUA tenham promovido mais de 64 intervenções na região nos últimos 50 anos, incluindo no Brasil e Chile, não havia ocorrido uma invasão dessa magnitude há 35 anos, desde a operação no Panamá para extrair o general Manuel Noriega.

"A América Latina, que é uma zona de paz no mundo, viu-se realmente muito surpreendida com essa violação da soberania e alteração da condição de paz", afirmou Samper, ressaltando que a região vive sem conflitos territoriais entre países há muitos anos.

As preocupações com a Colômbia e processos eleitorais

Sobre as declarações de Trump sugerindo que uma intervenção similar na Colômbia "soa bem", Samper classificou a afirmação como "desafiante" e "agressiva". No entanto, revelou que houve um diálogo telefônico posterior entre Trump e o presidente colombiano Gustavo Petro, com um acordo para se reunirem em Washington na primeira semana de fevereiro.

Samper acredita que Petro escolheu o caminho correto ao buscar o engajamento com Trump, pois isso poderia contribuir para que o ex-presidente americano não interfira nas eleições colombianas que começam em março. "Trump deu muitos exemplos de intromissão em processos eleitorais", lembrou o ex-presidente, citando casos em Honduras, Chile e Argentina.

O futuro da integração sul-americana

Questionado sobre o que restou da integração sul-americana, Samper respondeu com uma reflexão melancólica: "A integração da América Latina nunca foi tão necessária como agora e nunca estivemos tão desintegrados como agora". Ele lamentou que a Unasul esteja praticamente desaparecida e que a Celac (Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos) seja um mecanismo sem poder significativo.

Samper destacou alguns avanços regionais, como o acordo comercial recentemente assinado entre o Mercosul e a Europa, o Pacto Amazônico e a integração centro-americana. No entanto, alertou que os acordos de livre comércio com os Estados Unidos, somados à polarização política amplificada pelas redes sociais, estão produzindo uma crise de representatividade muito grande na região.

Contexto pessoal e histórico de Ernesto Samper

Ernesto Samper, de 75 anos, tem uma trajetória marcada por eventos dramáticos. Em 3 de março de 1989, quando era senador e disputava a candidatura presidencial pelo Partido Liberal, foi alvejado por cinco disparos em um atentado promovido por grupos paramilitares. O candidato de esquerda José Antequera, atingido por 13 projéteis na mesma ocasião, não sobreviveu.

Ao chegar ao hospital, os médicos deram a Samper apenas quatro minutos de vida. "Doutor, não me deixe morrer", pediu ele. Cinco anos depois, foi eleito presidente da Colômbia, governando de 1994 a 1998. Seu mandato foi marcado pelo Processo 8000, investigação sobre suposto financiamento de sua campanha pelo Cartel de Cali, que levou à prisão de um ministro da Defesa e um procurador-geral, mas da qual Samper escapou do impeachment.

Quase quatro décadas após o atentado, Samper ainda carrega no corpo quatro das cinco balas que o atingiram. Após deixar a presidência, criou duas fundações e foi um dos inspiradores do Grupo de Puebla, organização que reúne líderes de centro-esquerda e esquerda da América Latina e da Espanha.