Portugal decide presidente em 2º turno histórico após 40 anos: socialista vs. extrema direita
Portugal tem 2º turno presidencial após 40 anos: socialista vs. extrema direita

Portugal vive eleição presidencial histórica com segundo turno após 40 anos

Neste domingo (8), os portugueses decidem em um pleito definitivo quem ocupará o Palácio de Belém como próximo presidente do país. Pela primeira vez em quatro décadas, Portugal terá um segundo turno nas eleições presidenciais, um marco que reflete a profunda fragmentação política observada no primeiro turno, onde participaram 11 partidos, estabelecendo outro recorde na história eleitoral portuguesa.

Disputa entre centro-esquerda e extrema direita define cenário político

O embate final coloca frente a frente o candidato do Partido Socialista, António José Seguro, que venceu o primeiro turno com aproximadamente 31% dos votos, e André Ventura, líder do partido de extrema direita Chega, que obteve 23,49% dos votos na primeira rodada. Ventura lidera a sigla que, nas últimas eleições parlamentares, se tornou a segunda força política de Portugal, consolidando uma presença significativa no cenário nacional.

Pesquisas apontam vantagem para Seguro, mas rejeição e clima preocupam

Levantamentos recentes de intenção de voto indicam uma vantagem substancial para o candidato socialista. Uma pesquisa realizada pelo Centro de Estudos e Sondagens de Opinião (Cesop), da Universidade Católica, mostra Seguro com 70% das intenções de voto, contra 30% de Ventura. No entanto, o líder do Chega enfrenta um índice de rejeição de cerca de 60% entre os eleitores, segundo dados das pesquisas, o que pode influenciar o resultado final.

O cenário eleitoral, porém, permanece envolto em incertezas devido a um fator externo inesperado: as tempestades de inverno que assolaram Portugal nas últimas semanas. Esses eventos climáticos extremos causaram mortes e destruição significativa, com uma cidade inteira praticamente submersa. Ambos os candidatos adaptaram suas campanhas para visitar áreas afetadas e dialogar com moradores, criticando a resposta do governo atual aos temporais, que continuam a atingir também a vizinha Espanha.

Temor de alta abstenção e sistema político único explicam importância do pleito

Uma nova frente fria com tempestades, que chegou ao país no fim da semana, gerou preocupações sobre uma alta taxa de abstenção, já que o voto não é obrigatório em Portugal. Ventura chegou a solicitar o adiamento da eleição, pedido que foi negado pelo governo. Essa situação climática adversa pode alterar as previsões atuais e impactar diretamente o desfecho do pleito.

O cargo presidencial em Portugal é ocupado há quase uma década por Marcelo Rebelo de Sousa, de centro-direita, conhecido por sua postura conciliadora e por conduzir o país através de sucessivas crises políticas. Impedido pela Constituição de concorrer a um terceiro mandato consecutivo, Rebelo de Sousa abriu espaço para esta disputa inédita. Esta será a quinta eleição nacional desde 2024, considerando também os pleitos para primeiro-ministro.

Entenda o sistema semipresidencialista português

Portugal adota um sistema político conhecido como semipresidencialismo, que divide o Poder Executivo entre as figuras de presidente e primeiro-ministro. Enquanto o primeiro-ministro atua como chefe de governo, administrando o dia a dia do país e tomando decisões operacionais, o presidente exerce uma função mais cerimonial, porém com poderes cruciais em momentos críticos.

O presidente português, como chefe de Estado, possui atribuições significativas:

  • Comando das Forças Armadas, com capacidade de mobilizar ou desmobilizar tropas;
  • Poder de destituir o governo caso julgue que não está cumprindo suas funções adequadamente;
  • Autoridade para dissolver o Parlamento e convocar novas eleições;
  • Responsabilidade de nomear o primeiro-ministro após indicação parlamentar;
  • Direito de vetar leis consideradas inconstitucionais ou prejudiciais ao país.

Este sistema foi consolidado após a Revolução dos Cravos em 1974, com o objetivo de evitar a concentração de poder e garantir um controle mútuo entre os líderes soberanos. Estima-se que cerca de 50 países no mundo adotem modelos semelhantes, incluindo na Europa nações como França, Polônia e Rússia, cada uma com suas particularidades específicas.

Assim, o segundo turno presidencial em Portugal não apenas define o sucessor de Rebelo de Sousa, mas também testa a resiliência democrática do país em um contexto de polarização política, desafios climáticos e fragmentação eleitoral sem precedentes nas últimas quatro décadas.