Nova biografia revela D. João VI como estrategista que moldou o Brasil
Biografia desmistifica D. João VI como estrategista, não ingênuo

Biografia desconstroi imagem caricata de D. João VI e revela monarca estratégico

A figura histórica de dom João VI, frequentemente retratada como um governante indeciso e medroso, ganha uma reinterpretação profunda e documentada com o lançamento da biografia D. João VI: a História Não Contada, do pesquisador Paulo Rezzutti. A obra, que chega às livrarias do Brasil e de Portugal em março, mergulha em arquivos primários inéditos para apresentar um monarca que, longe da ingenuidade, foi um estrategista crucial na preservação da coroa portuguesa e no desenvolvimento do Brasil.

Revisão histórica baseada em documentos inéditos

Fruto de uma investigação iniciada em 2019, o livro utiliza documentação de arquivos nacionais e estrangeiros para desconstruir a imagem do rei como o "bobo da corte". Rezzutti demonstra que, enquanto outros soberanos europeus sucumbiam às ambições napoleônicas, dom João VI realizou uma manobra geopolítica sem precedentes ao transferir a corte para o Rio de Janeiro em 1808.

Essa decisão, muitas vezes caricaturada como uma fuga covarde, é apresentada como uma escolha pragmática e visionária. Documentos históricos revelam que a ideia de deslocar a sede do reino para o Brasil já era debatida antes da ameaça francesa, destacando a importância econômica da colônia, que superava a da metrópole.

Desmistificação de mitos e caricaturas

A biografia enfrenta diretamente os mitos consolidados sobre o monarca, começando pela famosa frase atribuída a Napoleão Bonaparte: "Foi o único que me enganou". Rezzutti esclarece que essa sentença não consta em registros históricos oficiais, sendo uma construção posterior, possivelmente do início do século XX.

Outro aspecto abordado é a caricatura física e comportamental de dom João VI, especialmente a lenda de seu consumo exagerado de frango. A obra explica que as quantidades registradas na Real Ucharia sustentavam toda a estrutura servil ao redor do rei, e não apenas seu apetite pessoal, corrigindo uma má interpretação perpetuada pelo cinema e pela cultura popular.

Legado de estadista e desenvolvimento do Brasil

Além de desfazer estereótipos, a biografia ilumina a faceta de estadista de dom João VI, frequentemente obscurecida por sua reputação de indecisão. O autor destaca que, embora o monarca fosse meticuloso e ouvisse diversos conselheiros antes de agir, uma vez tomada uma decisão, a sustentava com determinação.

Sob sua gestão, o Brasil testemunhou avanços significativos:

  • Criação da indústria, com fábricas de pólvora e ferro
  • Estabelecimento da imprensa no país
  • Fundação do ensino superior de medicina
  • Criação de instituições científicas, como o Jardim Botânico e o Museu Real

Dom João VI também se mostrou um entusiasta da ciência, promovendo a vacinação contra a varíola em sua família e entre os súditos, em contraste com a posição contrária de sua mãe, dona Maria I.

Relações pessoais e contexto histórico complexo

A obra revisita a relação conturbada com sua esposa, Carlota Joaquina, evitando o sensacionalismo e focando nos aspectos políticos. Embora o casamento fosse problemático, com a rainha conspirando para assumir o poder, dom João VI manteve a unidade dinástica, garantindo a continuidade de sua linhagem em ambos os lados do Atlântico.

A biografia não ignora as sombras do período, como a manutenção da escravidão e a repressão a movimentos liberais, mas busca oferecer um equilíbrio histórico. Ao final, emerge a imagem de um governante que, entre a pressão napoleônica e a influência britânica, conseguiu preservar um império ultramarino e lançar as bases para a nação brasileira independente.

O "Rei Velho", como era chamado carinhosamente por parte da população, pode não corresponder ao arquétipo do herói tradicional, mas sua visão estratégica e paciência política desenharam o mapa do Brasil contemporâneo, merecendo uma reavaliação histórica fundamentada em documentos e análise crítica.