Quase um quarto dos idosos gaúchos enfrenta situação de endividamento
Um cenário preocupante de endividamento atinge aposentados e pensionistas no Rio Grande do Sul, onde quase um quarto da população idosa enfrenta dificuldades financeiras. Dados recentes do Serasa revelam que 23% dos gaúchos com mais de 60 anos estão endividados, um reflexo da insuficiência das rendas para cobrir despesas mensais básicas.
Renda insuficiente leva a busca por crédito
Com salários considerados pequenos para as necessidades do dia a dia, muitos idosos recorrem a empréstimos consignados e outras linhas de crédito para fechar as contas. "Vim atrás do empréstimo. Mora minha filha e meu neto e a gente mora de aluguel. Tem que ajudar na casa, senão não dá para viver, com esse salário bem pequeninho", relata a aposentada Sandra Terezinha Peixoto, exemplificando a realidade de milhares.
A situação é compartilhada por outros aposentados que veem suas rendas comprometidas desde o momento do recebimento. "Entrou teu salário e já vem descontado tudo. Eu trabalho com cheque especial sempre do banco, porque não tenho outro jeito. Me sobra trezentos reais para o mês inteiro", descreve Ronald Godoy, evidenciando um ciclo vicioso de dívidas.
Complemento de renda através de trabalhos informais
Para tentar equilibrar o orçamento, alguns idosos buscam alternativas informais de trabalho. "Fazendo algum biscatezinho, uma capina, um corte de grama, alguma coisa. Arrumando um dinheirinho para conseguir sobreviver, senão não dá", explica Vilson Luiz da Silva, demonstrando como a sobrevivência financeira exige esforços extras além da aposentadoria.
Segundo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), até 31 de dezembro foram liberados impressionantes R$ 800 milhões em empréstimos consignados no estado gaúcho. Um representante do órgão destaca que essa modalidade é "infinitamente mais em conta do que qualquer linha tradicional", mas alerta para riscos significativos, especialmente a violência financeira praticada por familiares.
Três perfis de endividamento identificados
A Defensoria Pública do Rio Grande do Sul mapeou três perfis principais de endividamento entre a população idosa:
- Vítimas de golpes ou descontos não autorizados em seus benefícios previdenciários
- Pessoas que contrataram empréstimos com juros abusivos, muitas vezes sem plena compreensão dos termos
- Superendividados que já comprometem a maior parte de sua renda e não conseguem arcar com custos básicos de sobrevivência
A defensora pública Bibiana Veríssimo Bernardes explica que, em muitos casos, os aposentados são os únicos com renda fixa na família, o que aumenta exponencialmente a pressão financeira sobre eles. "As pessoas acabam usando seus benefícios para pagar despesas básicas, como alimentação, medicação e moradia, e esse valor não é suficiente", destaca a especialista.
Soluções e críticas à falta de políticas públicas
Para os casos de superendividamento, a defensoria pública oferece um caminho: "Chamamos todos os credores para repactuar as dívidas e fazemos um plano de pagamento de até cinco anos. A lei do superendividamento está aí para isso e a Defensoria Pública pode auxiliar", afirma Bibiana Bernardes.
José Pedro Kuhn, presidente da Federação dos Trabalhadores Aposentados e Pensionistas do RS (Fetapergs), critica a ausência de políticas públicas adequadas. "Não existe uma política e não existem programas de esclarecimento, de orientação do próprio aposentado. O aposentado tem que ser preparado para se aposentar", defende o líder sindical.
A frustração com a realidade da aposentadoria no estado é resumida por Geneci dos Santos: "Achei que agora, com 65 anos, ia descansar, não ia precisar correr tanto. Mas foi pior. Tu vai no mercado e não consegue comprar nada. Com o que eu ganho não dá para sobreviver". Este desabafo reflete o sentimento de muitos idosos gaúchos que enfrentam o desafio de sobreviver com rendas insuficientes em um contexto econômico desafiador.