A Groenlândia, a maior ilha do planeta com mais de 2 milhões de quilômetros quadrados, tornou-se o epicentro de uma crise geopolítica que ameaça a estabilidade da Europa e da aliança militar mais poderosa do Ocidente. Estrategicamente posicionada entre o Ártico e o Atlântico Norte, este território semiautônomo da Dinamarca, rico em minerais raros, virou objeto de desejo declarado do governo dos Estados Unidos sob a administração de Donald Trump.
Interesses estratégicos e a cobiça americana
O professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Vitelio Brustolin, convidado do podcast O Assunto, apresentado por Natuza Nery, explica os motivos por trás da ambição norte-americana. Os interesses são tanto militares quanto estratégicos. No plano militar, destaca-se a possibilidade de construção de infraestruturas como o chamado Domo de Ouro, que reforçariam a presença bélica dos EUA na região.
No campo estratégico, o degelo no Ártico está abrindo uma nova e crucial rota naval, reduzindo drasticamente o tempo de viagem entre oceanos. Controlar a Groenlândia significaria controlar um ponto-chave nessa nova via comercial e militar global. Trump já sugeriu publicamente a anexação ou compra da ilha, mas o governo dinamarquês foi categórico em recusar qualquer negociação sobre a soberania do território.
Crise ampliada e tensão na Otan
A tensão escalou quando a Casa Branca anunciou a imposição de novas tarifas contra oito países europeus que enviaram tropas para a Groenlândia na última semana. Esta medida, vista como retaliação, escancara a fragilidade atual da Europa e coloca a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em uma situação de risco sem precedentes.
Brustolin analisa que uma eventual anexação da Groenlândia pelos Estados Unidos teria consequências catastróficas para a aliança, que reúne 30 países, a maioria europeus. "Seria um cenário catastrófico para o mundo todo", alerta o especialista, apontando para os sinais claros de enfraquecimento da Otan e os perigos deste processo de deterioração.
Reações e cenário futuro
Enquanto os líderes políticos se enfrentam, a população local já demonstra sua insatisfação. Moradores da Groenlândia realizaram protestos contra os EUA em 15 de março de 2025, como registrado em foto de Christian Klindt Soelbeck. Do lado europeu, há a possibilidade de, pela primeira vez, acionar um instrumento anticoerção para se defender das pressões americanas.
Paralelamente, países europeus anunciaram o reforço da segurança no Ártico após as ameaças de Trump. Analistas também especulam que o desejo do ex-presidente americano de ganhar o Prêmio Nobel da Paz pode ter influenciado sua ambição de tomar a ilha, numa tentativa de marcar um feito histórico. A crise na Groenlândia, portanto, vai muito além de um território gelado: ela é um termômetro das fraturas no sistema de alianças ocidental e um prenúncio de uma nova ordem geopolítica conturbada.