Especialistas em relações internacionais alertam para momento decisivo na Europa
O cenário geopolítico atual é classificado por especialistas em relações internacionais como um momento crucial e decisivo para o futuro da Europa. Nos últimos meses, a crise entre o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e as nações europeias foi ganhando contornos cada vez mais dramáticos, atingindo um ponto crítico em uma terça-feira recente, dia 20.
Uma transformação drástica do mundo ao vivo
Para o professor de relações internacionais Oliver Stunkel, estamos assistindo, em tempo real, a uma transformação drástica da ordem mundial. "Estamos diante da maior ruptura da relação transatlântica, a maior crise da OTAN e a Europa precisa realmente, a partir de agora, lidar com um mundo totalmente diferente", afirma Stunkel. Ele ressalta que, ao longo de décadas, desde a Segunda Guerra Mundial, a Europa chegou a depender totalmente dos Estados Unidos, e essa fase parece ter chegado ao fim. "Essa é a maior mudança geopolítica da nossa geração. A maior mudança geopolítica depois do colapso da União Soviética", destaca o especialista.
Retrocesso ao mundo pré-direito internacional
Já o professor de relações internacionais Vitelio Brustolin avalia que vivemos um retrocesso significativo. "É um retorno ao mundo pré-direito Internacional, quando potências militares podem impor a países menores à força, inclusive rasgando a carta da ONU e o direito Internacional, ameaçando tomar territórios desses países", explica Brustolin. Ele observa que os Estados Unidos, um país que ajudou a criar organizações internacionais, está abandonando uma estratégia de segurança mútua e coletiva com a Europa, que existia desde a Segunda Guerra Mundial e era considerada mutuamente benéfica.
Preocupações domésticas e ambições externas
Na mesma terça-feira, dia 20, enquanto discursava na Casa Branca, Trump focou em temas como fotos de criminosos, números de deportações e listas de realizações, mas falou pouco sobre a inflação, que tem sido uma grande preocupação dos americanos nos últimos anos. Leandro Gilio, professor e pesquisador do Insper Agro Global, aponta os impactos econômicos: "Entre os índices que mais sobem preços nos Estados Unidos estão os alimentos de modo geral, ali em 3.1%, e alguns especificamente foram resultado direto do tarifaço". Ele detalha que, nos últimos 12 meses, os preços das carnes nos EUA cresceram mais de 10%, e o café mais de 20%, um impacto direto das restrições à importação e aumento de tarifas, inclusive de produtos brasileiros, como carnes e café.
Trump tenta conciliar essas preocupações domésticas com ambições na política externa, declarando que as tarifas são a forma mais rápida e menos "complicada" de conseguir seus objetivos, como na questão da Groenlândia.
Europa em encruzilhada e hora da verdade
Mais cedo, o primeiro-ministro da Bélgica afirmou em Davos que a Europa está numa encruzilhada, alertando que "tantas linhas vermelhas foram ultrapassadas por Trump que o continente precisa se impor ou vai perder a dignidade". Para Stunkel, este é um momento decisivo não apenas para os europeus, mas para o mundo todo. "Esta é a hora da verdade dos europeus, não só diante de Trump, mas diante dos russos também porque se a Europa agora não conseguir responder de forma unida, assertiva e firme, a Rússia pode interpretar isso como um convite", adverte.
Muitos analistas europeus agora alertam que é preciso ser firme com Trump, assim como a China e o Brasil foram, para evitar enviar um sinal claro de fraqueza para outras grandes potências. O momento exige uma resposta coordenada e robusta da Europa para preservar sua posição no cenário global.