Historiadores acusam governo Trump de distorcer história para justificar políticas
Especialistas em história e analistas políticos levantaram duras críticas contra o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, após a divulgação de uma declaração oficial que apresenta uma versão considerada "historicamente imprecisa" da Guerra Mexicano-Americana. O documento, emitido pela Casa Branca na segunda-feira (2), tem sido interpretado como uma tentativa de reescrever os eventos históricos para alinhá-los com as atuais decisões de política externa da administração em relação à América Latina.
Declaração polêmica glorifica conflito do século XIX
O comunicado oficial foi divulgado em comemoração ao aniversário do conflito que ocorreu entre 1846 e 1848, descrevendo a guerra como uma "vitória lendária que garantiu o Sudoeste americano, reafirmou a soberania dos Estados Unidos e expandiu a promessa da independência americana por todo o nosso majestoso continente". O texto estabelece paralelos explícitos entre aquele período histórico e as políticas contemporâneas do governo Trump, sugerindo que as ações atuais servem para "garantir que o Hemisfério permaneça seguro".
"Guiado por nossa vitória nos campos do México há 178 anos, não poupei esforços para defender nossa fronteira sul contra a invasão, sustentar o Estado de Direito e proteger nossa pátria de forças do mal, da violência e da destruição", afirma a declaração não assinada. Notavelmente, o documento omite completamente o papel central que a escravidão desempenhou no conflito e glorifica o conceito do "Destino Manifesto", período que resultou no deslocamento forçado de centenas de milhares de povos indígenas de seus territórios tradicionais.
Especialistas apontam distorções históricas graves
Alexander Aviña, professor de história da América Latina na Universidade Estadual do Arizona, foi um dos primeiros a criticar publicamente o conteúdo da declaração. Segundo ele, o texto "minimiza a enorme quantidade de violência necessária para expandir" os Estados Unidos até o Oceano Pacífico. Esta revisão histórica ocorre em um momento particularmente sensível, quando o governo Trump retomou intervenções nos assuntos latino-americanos em uma escala não vista há décadas.
"Desde então, líderes políticos dos EUA veem isso como um aspecto feio da história americana. Este é um caso bastante claro de imperialismo dos Estados Unidos contra seu vizinho do sul", explicou Aviña. "O governo Trump está, na verdade, abraçando isso como algo positivo da história dos EUA e enquadrando — de forma historicamente incorreta — como se fosse uma medida defensiva para impedir o México de invadi-los."
Reação mexicana combina ironia e firmeza
As críticas à declaração da Casa Branca se espalharam rapidamente pelas redes sociais na terça-feira (3), gerando debates acalorados sobre a interpretação histórica. Questionada sobre o comunicado durante sua coletiva de imprensa matinal, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, reagiu com uma risada irônica, observando que "temos de defender a soberania".
Sheinbaum, que mantém uma relação cautelosa e frequentemente tensa com o governo Trump, costuma responder ao presidente norte-americano com um tom equilibrado que frequentemente inclui sarcasmo — como ocorreu anteriormente quando Trump sugeriu mudar o nome do Golfo do México para Golfo da América. A presidente mexicana frequentemente lembra Trump de que o México é uma nação soberana, especialmente quando ele cogita abertamente ações militares contra cartéis mexicanos.
Contexto histórico sensível entre as nações
A Guerra Mexicano-Americana foi desencadeada por disputas fronteiriças de longa data entre os Estados Unidos e o México, intensificadas pela anexação do Texas pelos EUA em 1845. Nos anos anteriores ao conflito, colonos americanos haviam se estabelecido gradualmente em territórios que então pertenciam ao México, um país que havia proibido a escravidão.
Os abolicionistas dos Estados Unidos temiam que a apropriação dessas terras tivesse como objetivo principal criar novos estados escravistas. Após o início dos combates e uma série de vitórias militares dos EUA, o México foi forçado a ceder mais de 525 mil milhas quadradas de território — áreas que hoje formam estados como Arizona, Califórnia, Novo México, Texas e Utah.
Este episódio transformou o Texas em uma peça-chave durante a Guerra Civil dos Estados Unidos e levou o ex-presidente Ulysses S. Grant a escrever posteriormente que o conflito com o México foi "um dos mais injustos já travados por uma nação mais forte contra uma mais fraca". Curiosamente, a própria Associated Press foi criada quando cinco jornais de Nova York financiaram uma rota de correio a cavalo pelo Alabama para levar notícias da Guerra do México mais rapidamente ao norte do que o serviço postal oficial.
Padrão de reescrita histórica preocupa acadêmicos
A declaração da Casa Branca se insere em um padrão mais amplo de ações do governo Trump para moldar a linguagem e a narrativa histórica do governo federal de acordo com sua própria ideologia, conforme explicou Albert Camarillo, professor de história da Universidade Stanford. Ele descreveu o texto como uma versão "distorcida, não histórica e imperialista" dos eventos.
Aviña complementa essa análise, afirmando que o comunicado serve "para afirmar, retoricamente, que os Estados Unidos estão justificados em impor sua chamada política de 'América Primeiro' em todo o continente americano", independentemente da precisão histórica dos fatos.
Este não é um caso isolado. O governo Trump já ordenou a reescrita de conteúdos históricos exibidos no Instituto Smithsonian, alegando estar "restaurando a verdade e a sanidade à história americana". A administração também removeu de sites governamentais registros históricos, documentos legais e dados considerados indesejáveis, além de determinar a retirada de referências que "inapropriadamente difamem americanos, do passado ou do presente" — incluindo menções à escravidão, à destruição das culturas indígenas e às mudanças climáticas.
"Essa declaração é consistente com tantas outras que tentam embranquecer e reformular a história dos Estados Unidos e apagar gerações de pesquisa histórica", concluiu Camarillo, destacando a preocupação com o revisionismo histórico promovido pela atual administração.