Diálogo presidencial aborda temas globais e bilaterais
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve uma conversa telefônica com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta segunda-feira, 26 de janeiro de 2026. A ligação, que durou aproximadamente 40 minutos, tratou de questões cruciais para a relação bilateral entre os dois países e para a agenda internacional.
Venezuela pós-intervenção americana
Um dos principais temas abordados foi a situação na Venezuela, após a captura do ex-presidente Nicolás Maduro por forças americanas no início do mês. Lula destacou a importância de preservar a paz e a estabilidade na região, enquanto ambos os líderes trocaram impressões sobre o governo interino de Delcy Rodríguez, que assumiu o poder desde a intervenção militar em 3 de janeiro.
O mandatário brasileiro enfatizou a necessidade de trabalhar pelo bem-estar do povo venezuelano, em meio a um cenário político ainda em definição. A conversa ocorre em um momento delicado, com tensões regionais aumentando após as ações americanas no país vizinho.
Controvérsia sobre o 'Conselho da Paz'
Outro ponto central da discussão foi o polêmico 'Conselho da Paz' criado por Trump para administrar a reconstrução da Faixa de Gaza. O Brasil foi convidado a integrar este órgão, que tem gerado reações diversas na comunidade internacional.
Lula propôs que o Conselho se limite estritamente à questão de Gaza e inclua a previsão de criação de um Estado da Palestina. Esta posição reflete a tradicional postura brasileira de defesa da solução de dois Estados para o conflito israelense-palestino.
Enquanto cerca de 30 nações já aceitaram participar do Conselho, incluindo Argentina, Paraguai, Indonésia e Arábia Saudita, outras como França e Noruega rejeitaram o convite. A recusa francesa levou Trump a ameaçar impor tarifas de até 200% sobre vinhos e champagne do país europeu.
Preocupações com a ONU e reformas necessárias
Durante a conversa, Lula reiterou a importância de uma reforma abrangente das Nações Unidas, que inclua a ampliação dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Esta posição brasileira é histórica e ganha novo contexto com a criação do 'Conselho da Paz' de Trump.
Muitos países temem que o novo órgão, cuja adesão permanente custa US$ 1 bilhão e é liderado pessoalmente por Trump, possa enfraquecer ainda mais a já debilitada ONU. A organização internacional tem enfrentado crescentes desafios em processos de mediação de conflitos nos últimos anos.
Questões econômicas e tarifárias
A conversa também abordou temas econômicos, em meio às tensões comerciais que afetam o Brasil desde o ano passado. Trump destacou que o crescimento econômico dos Estados Unidos e do Brasil é positivo para toda a região, enquanto ambos reconheceram a melhora nas relações comerciais.
Nos últimos meses, as alíquotas sobre alguns produtos-chave do agronegócio brasileiro foram reduzidas de 50% para 10%. No entanto, mercadorias como o café ainda enfrentam as tarifas mais altas impostas pelos Estados Unidos.
Cooperação contra o crime organizado
Lula sinalizou favoravelmente ao fortalecimento da cooperação entre Washington e Brasília no combate ao crime organizado. Este tema ganhou ainda mais relevância após a intervenção americana na Venezuela e a detenção de Maduro, que foi levado a Nova York para responder a acusações ligadas ao narcotráfico.
O presidente brasileiro manifestou interesse em estreitar a parceria em áreas específicas:
- Repressão à lavagem de dinheiro
- Combate ao tráfico de armas
- Congelamento de ativos de grupos criminosos
- Intercâmbio de dados sobre transações financeiras
Esta proposta, encaminhada ao Departamento de Estado em dezembro, foi bem recebida por Trump, que recentemente sugeriu enviar forças americanas para combater cartéis no México.
Visita presidencial marcada
Por fim, os dois chefes de Estado combinaram uma visita de Lula a Washington, que ocorrerá após sua viagem à Índia e à Coreia do Sul em fevereiro. A data exata deve ser definida em breve, marcando mais um capítulo nas relações entre os dois maiores países das Américas.
Esta conversa ocorre em um momento de redefinição das alianças internacionais, com o 'Conselho da Paz' de Trump representando um desafio direto à arquitetura multilateral tradicional. O diálogo entre Lula e Trump demonstra tanto os pontos de convergência quanto as diferenças nas visões de mundo dos dois líderes.