Livro 'America, America' Desvenda 500 Anos de Relações Complexas dos EUA com a América Latina
O novo livro do historiador e professor de Yale, Greg Grandin, intitulado "America, America: A New History of the New World", oferece uma análise profunda e ambiciosa das difíceis relações dos Estados Unidos com o resto do continente americano. Com 758 páginas, a obra cobre cinco séculos de história, desde o frade Bartolomé de Las Casas no século XVI até a Guerra Fria de Richard Nixon, revelando padrões de imposição que moldaram a identidade latino-americana.
Da Simpatia Inicial à Imposição: A Evolução da Doutrina Monroe
Grandin inicia sua narrativa com um episódio revelador do final do século XVIII, quando o advogado e banqueiro Alexander Hamilton e o militar espanhol-venezuelano Francisco de Miranda trocaram cartas sobre o futuro do continente. Miranda, um ex-oficial do Exército espanhol convertido à insurgência, defendia que os Estados Unidos, liderados pelo primeiro presidente George Washington, deveriam comandar um movimento de independência nas colônias ao sul.
No entanto, com a oposição do presidente John Adams e a morte de Hamilton em um duelo, Miranda acabou encontrando seu libertador no venezuelano Simón Bolívar. Esse episódio, segundo Grandin, ilustra como os EUA foram inicialmente vistos como um modelo para as futuras repúblicas, uma simpatia que fez com que até a infame Doutrina Monroe de 1823 fosse inicialmente saudada como positiva, por ser vista como um muro contra as pressões europeias.
Demorou algum tempo para que os países latino-americanos compreendessem que o lema "América para os americanos" se referia especificamente aos Estados Unidos, e não aos habitantes de todo o continente. O México foi o primeiro a sentir o impacto dessa realidade, com a colonização, insurgência, independência e anexação do Texas servindo como prova do destino manifesto expansionista dos norte-americanos.
Intervenções dos EUA: Regra, Não Exceção
O livro destaca que as dezenas de intervenções diretas e indiretas dos Estados Unidos no continente ao longo da história mostram que ações como a intervenção militar de Donald Trump na Venezuela são a regra, não a exceção. Grandin argumenta que os EUA moldaram a região não apenas como um modelo, mas por meio de imposição, força, racismo e exploração de recursos naturais.
Em vez de analisar os Estados Unidos pela via tradicional, como uma república formada em oposição à Europa, o autor os examina através de sua relação com o resto do continente. Essa perspectiva original revela como parte da identidade da América Latina foi moldada pelo conflito de aceitação e rejeição dos EUA.
A Identidade Latino-Americana: Entre o Antiamericanismo e o Pró-Americanismo
Grandin acerta ao demonstrar como o antiamericanismo e o pró-americanismo são duas faces da mesma moeda em países que buscam ser aceitos pelos Estados Unidos como iguais, mas nunca conseguem alcançar esse reconhecimento. Essa dinâmica complexa de aceitação e rejeição é central para entender a formação da identidade latino-americana, que se desenvolveu na intricada relação com o vizinho do Norte.
A obra, publicada pela editora Penguin Press e disponível por R$ 152,27, é considerada uma leitura essencial para quem deseja compreender as raízes históricas das relações políticas na região. Com uma narrativa rica em detalhes, "America, America" convida os leitores a refletirem sobre como o passado continua a influenciar o presente e o futuro das nações latino-americanas.