Irã demonstra abertura para diálogo com EUA sobre programa nuclear, mas impõe condições
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, declarou nesta terça-feira (3) que as negociações com os Estados Unidos devem ser mantidas para garantir os interesses nacionais do país. No entanto, ele estabeleceu uma condição clara: é necessário evitar "ameaças e expectativas irrazoáveis" para que o processo avance de forma produtiva.
Preparação para negociações equitativas e justas
Pezeshkian afirmou que, considerando as demandas de países amigos da região para responder à sugestão do presidente dos EUA de iniciar negociações, instruiu o ministro das Relações Exteriores a preparar o terreno para negociações equitativas e justas. Isso ocorreria apenas caso surja uma atmosfera livre de pressões indevidas.
O anúncio segue uma reportagem do jornal The New York Times publicada na segunda-feira (2), que informou que o Irã está disposto a encerrar seu programa nuclear para reduzir as tensões com os Estados Unidos. Os EUA, por sua vez, pressionam o Irã a limitar ou abandonar o programa, alegando que o país estaria próximo de desenvolver uma arma atômica. Teerã nega veementemente essas acusações, afirmando que o programa tem fins pacíficos, voltados exclusivamente para a produção de energia.
Encontro marcado na Turquia com presença de enviados especiais
Autoridades iranianas e norte-americanas devem se reunir na sexta-feira (6), na Turquia, para discutir o tema em profundidade. O encontro terá a presença de Steve Witkoff, enviado do presidente Donald Trump para o Oriente Médio, e de Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã.
De acordo com informações do New York Times, o Irã deve defender na reunião a aceitação de uma proposta dos EUA para a criação de um consórcio regional no Oriente Médio voltado à produção de energia nuclear. Como alternativa, o país também poderia encerrar ou suspender o programa atual para aliviar as tensões com os norte-americanos.
Contexto histórico e envolvimento russo
A reportagem também revelou que autoridades iranianas se reuniram recentemente com o presidente russo, Vladimir Putin, para avaliar a possibilidade de enviar urânio enriquecido para a Rússia. Medida semelhante foi adotada em 2015, no âmbito de um acordo internacional sobre o programa nuclear.
Naquele momento, o Irã se comprometeu a limitar as atividades nucleares em troca do alívio de sanções internacionais. Mais de 11 toneladas de urânio de baixo enriquecimento foram enviadas à Rússia. Três anos depois, Trump retirou os EUA do acordo sob a justificativa de que o Irã continuava enriquecendo urânio, reimpondo sanções ao país.
Tensões recentes e ameaças militares
As tensões entre Estados Unidos e Irã aumentaram significativamente na semana passada após novas declarações de Trump. O presidente norte-americano afirmou que está disposto a autorizar uma operação militar contra o Irã caso Teerã não aceite fechar um acordo nuclear.
Em uma rede social, Trump citou o envio do porta-aviões USS Abraham Lincoln à região e disse que o grupo de ataque está pronto para agir "com velocidade e violência, se necessário". Ele também comparou a mobilização atual a operações recentes conduzidas pelos EUA, como a ação que levou à captura do ditador deposto Nicolás Maduro, na Venezuela, afirmando que a movimentação no Oriente Médio é ainda maior.
Trump ainda relembrou o bombardeio de três instalações nucleares do Irã, realizado em junho do ano passado em parceria com Israel, declarando que um novo ataque ao país seria "muito pior".
Resposta iraniana e preparação para cenários extremos
Após as declarações ameaçadoras, o Irã afirmou estar disposto ao diálogo, mas reforçou que não abrirá mão do direito de se defender. Em nota, a missão iraniana junto à ONU disse que o país responderá "como nunca" caso seja atacado.
Além disso, o chanceler iraniano Abbas Araghchi negou que existam negociações em curso com os Estados Unidos e afirmou que o Irã não aceitará dialogar sob ameaças militares. Autoridades iranianas disseram que o governo se prepara para o pior cenário, incluindo a possibilidade de uma "guerra total".
Trump disse no domingo (1º) estar "otimista" com a possibilidade de um acordo com o Irã, mas manteve a ameaça implícita: "Esperamos chegar a um acordo. Mas, se não chegarmos, vamos ver o que pode acontecer".
O cenário atual mostra um delicado equilíbrio entre abertura diplomática e escalada militar, com o encontro na Turquia representando uma oportunidade crucial para definir os rumos das relações entre os dois países.