O governo do primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, resistiu a uma forte pressão política nesta quarta-feira, 14 de janeiro, ao derrotar duas moções de censura apresentadas na Assembleia Nacional. As votações, propostas separadamente pelos grupos da ultraesquerda e da ultradireita, foram uma reação direta à aprovação, na semana passada, do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul pelo Conselho Europeu.
Votações expõem divisão e cálculo político
No sistema político francês, uma moção de censura é o instrumento usado pela oposição para tentar derrubar o governo. Para ser aprovada, precisa do voto favorável da maioria absoluta dos 575 deputados, ou seja, 288 votos. A proposta apresentada pela esquerda, encabeçada pela França Insubmissa (LFI), obteve 256 votos. Já a moção da direita, do partido Reunião Nacional (RN), conseguiu apenas 142 votos.
As votações ocorreram de forma separada porque a agremiação de ultraesquerda LFI se recusou a apoiar a moção do RN de ultradireita. Mesmo que tivessem unido forças, no entanto, as duas frentes não alcançariam o número necessário de votos para derrubar Lecornu. O resultado já era esperado, pois o Partido Socialista (PS), da esquerda moderada, havia anunciado que não apoiaria nenhuma das propostas.
Acordo comercial com Mercosul acirra protestos
O cerne da crise política foi a aprovação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Tanto a esquerda quanto a direita acusam Lecornu e o presidente Emmanuel Macron de traírem os agricultores franceses ao não barraram o tratado no Conselho Europeu, onde a França acabou sendo voto vencido.
Em resposta, os produtores rurais franceses têm realizado protestos vigorosos. Eles ocuparam Paris com tratores em duas ocasiões recentes e mantêm bloqueios de estradas em várias regiões do país. Além da insatisfação com o acordo, os agricultores reclamam das medidas rigorosas para conter um surto de dermatose nodular contagiosa, uma doença que afetou parte do rebanho bovino nacional.
Estratégia e cenário futuro do governo
O Partido Socialista, com seus 69 deputados, foi peça-chave para a sobrevivência do governo. Apesar de não fazer parte da base oficial, o PS decidiu apoiar Lecornu pontualmente, com o objetivo de obter concessões. A principal delas foi o congelamento da reforma das aposentadorias, que elevaria a idade mínima de 62 para 64 anos e agora permanece em 62 anos e 9 meses.
Outro fator que pesou na decisão do PS foi o temor de uma dissolução do governo e a convocação de novas eleições. Pesquisas indicam que o partido elegeria apenas cerca de 20 deputados se um pleito fosse realizado agora. Lecornu, que governa desde setembro com uma frágil coalizão de centro-direita sem maioria parlamentar, enfrenta dificuldades até para aprovar o orçamento de 2026.
Durante o debate, o primeiro-ministro acusou os extremos do plenário de sabotagem e de projetar uma imagem de França dividida em um momento de tensão global. "Neste momento, protocolar moções de censura tem um impacto, e ele será pago pelo povo francês. É o momento de privar a França de estabilidade?", questionou Lecornu.
No início da semana, o premiê chegou a sugerir a possibilidade de dissolver a Assembleia Nacional caso uma das moções fosse aprovada. A manobra foi vista como uma pressão sobre a oposição moderada, já que pesquisas apontam o RN de Marine Le Pen como favorito em eventuais eleições antecipadas. Le Pen, líder nas sondagens para a presidência de 2027, teve seu recurso contra uma condenação por desvio de fundos do Parlamento Europeu julgado na terça-feira (13).
Enquanto isso, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, segue para Assunção, no Paraguai, onde participará da assinatura formal do acordo UE-Mercosul no sábado, 17 de janeiro. O governo francês prometeu, em contrapartida, propor em breve uma lei para reforçar a proteção aos agricultores, que já recebem subsídios bilionários do bloco europeu.