Veto de Lula à Dosimetria aprofunda crise com Congresso hostil, diz analista
Veto de Lula à Dosimetria acirra crise com Congresso

O veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao projeto de lei que altera a dosimetria das penas, beneficiando condenados pelos ataques de 8 de janeiro, acendeu um novo alerta para o governo no Congresso Nacional. A medida, anunciada em meio a uma ofensiva pública em defesa da democracia, escancara a distância entre o Planalto e um Legislativo considerado hostil, aprofundando uma tensão que promete marcar o ano pré-eleitoral de 2026.

Democracia como bandeira estratégica em um país dividido

Para o cientista político Rubens Figueiredo, entrevistado no programa Ponto de Vista, a defesa da democracia é uma escolha estratégica calculada do presidente Lula. Além do valor universal da pauta, ela possui forte apelo junto à opinião pública, onde o apoio ao regime democrático é majoritário. Pesquisas indicam que uma parcela relevante da sociedade brasileira considera justas as condenações relacionadas aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

"É uma causa simpática, que dialoga bem com a base eleitoral do presidente e ajuda a dar sentido político a eventos como esse", avalia Figueiredo. Nesse contexto, o veto ao PL da Dosimetria aparece como um movimento coerente com a narrativa construída pelo governo desde o início do terceiro mandato.

Isolamento político e o cálculo do Congresso

A ausência dos presidentes da Câmara, Arthur Lira, e do Senado, Rodrigo Pacheco, nos recentes atos públicos pró-democracia promovidos pelo governo reforçou a percepção de um Executivo politicamente isolado em temas sensíveis. Para Rubens Figueiredo, essa ausência não é um detalhe, mas um sinal claro das dificuldades que o Planalto enfrentará.

"O Congresso já nasceu adverso ao governo. O próprio PL da Dosimetria é fruto dessa correlação de forças", afirma o especialista. Ele destaca que a oposição tem força real e capacidade de impor derrotas à administração lulista. A mobilização da ala bolsonarista e de outros setores oposicionistas tende a ganhar ainda mais peso com a aproximação do calendário eleitoral.

Campanha permanente e o risco fiscal

Figueiredo observa que o governo Lula já opera em um modo de campanha permanente. Reuniões ministeriais, eventos públicos e discursos carregam um tom eleitoral explícito. O problema, segundo sua análise, é que essa estratégia convive com uma política fiscal expansionista, vista pela oposição como um "pacote de bondades" com foco no eleitor.

"O aumento do déficit, a pressão sobre juros e o risco fiscal criam munição para o Congresso dificultar a vida do governo", alerta o cientista político. Esse cenário gera um impasse estrutural: um Executivo minoritário diante de um Legislativo disposto a impor limites e cobrar um preço político alto pelas suas agendas.

O pano de fundo, na visão de Figueiredo, é um país profundamente rachado. A rejeição tanto a Lula quanto ao ex-presidente Jair Bolsonaro permanece elevada, criando um ambiente onde escolhas políticas são movidas mais pela aversão ao adversário do que por adesão a projetos concretos. Esse clima de polarização se reflete diretamente no Parlamento, limitando a capacidade de articulação do Palácio do Planalto.

O resultado é um governo que, apesar de manter um discurso firme em defesa da democracia, terá de enfrentar o custo crescente de governar uma nação dividida e negociar com um Congresso pouco inclinado a ceder espaço.