Governo francês sobrevive a moções de censura e avança com orçamento polêmico
França: governo sobrevive a moções de censura sobre orçamento

Governo francês resiste a moções de desconfiança e impõe orçamento controverso

O primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, conseguiu sobreviver a duas moções de censura no Parlamento nesta sexta-feira, 23 de janeiro de 2026. As votações foram movidas após a decisão do governo de aprovar parte das receitas do orçamento de 2026 sem uma votação formal na Assembleia Nacional, utilizando o polêmico artigo 49.3 da Constituição francesa.

Crise política se aprofunda com manobras constitucionais

Embora o governo possa respirar aliviado temporariamente, a França enfrenta uma grave crise política, com tensões que se intensificaram na semana passada. Lecornu já havia enfrentado outras duas moções de censura, apresentadas pela extrema direita e pela esquerda radical, em retaliação à aprovação do acordo entre a União Europeia e o Mercosul.

Na terça-feira, 20 de janeiro, o premiê acionou o procedimento conhecido como artigo 49.3, que permite a aprovação de um orçamento contornando o Parlamento. Esta estratégia tem sido usada pelo governo francês desde 2022, em um contexto de impasse legislativo.

Moções de censura falham, mas pressão política persiste

A única forma de bloquear a medida seria através de uma moção de censura, que poderia derrubar o primeiro-ministro. No entanto, as tentativas falharam:

  • Uma moção movida pelo partido de extrema esquerda França Insubmissa, junto aos Verdes e aos Comunistas, recebeu 269 votos a favor, aquém dos 288 necessários.
  • Uma segunda moção, protocolada pela extrema direita, obteve ainda menos apoio parlamentar.

Agora, espera-se que Lecornu invoque o artigo constitucional mais duas vezes para forçar a aprovação da parte das despesas do orçamento, o que deve desencadear novos votos de censura no futuro próximo.

Contexto de impasse e fortalecimento da extrema direita

A decisão de evitar o Parlamento ocorre após meses de negociações infrutíferas para aprovar um projeto de lei de finanças, destinado a conter o déficit público. A Assembleia Nacional está profundamente dividida em três blocos principais: centro-direita, extrema direita e esquerda, nenhum dos quais detém maioria absoluta.

Em resposta às manobras governamentais, a líder ultradireitista Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional, emitiu um alerta aos socialistas, sugerindo que apoiar Lecornu poderia prejudicá-los nas próximas eleições. Ela criticou o uso do artigo 49.3 como um processo humilhante e enfatizou que o povo francês está observando as ações dos parlamentares.

Panorama eleitoral desafiador para 2027

O presidente Emmanuel Macron, que já viu cinco de seus indicados ao cargo de primeiro-ministro serem derrubados, enfrenta um cenário complexo. Seu objetivo é domar a crise política em preparação para as eleições presidenciais de 2027, embora ele próprio não possa concorrer novamente.

Enquanto isso, a extrema direita ganha força significativa. Pesquisas recentes do Instituto Odoxa indicam que, se as eleições fossem realizadas hoje, Jordan Bardella, principal candidato da extrema direita, venceria com larga vantagem, alcançando 36% das intenções de voto no primeiro turno. Isso representaria uma derrota para candidatos da esquerda e da centro-direita, refletindo o enfraquecimento da ala centrista de Macron.

O governo francês continua a navegar por um período de instabilidade, com o orçamento polêmico servindo como um ponto focal para as crescentes tensões políticas e o ascenso da oposição radical.