Nova Estratégia de Defesa dos EUA ameaça aliados e prioriza controle da Groenlândia e Panamá
A recém-publicada Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos, divulgada na sexta-feira (23), estabelece diretrizes alarmantes para a política externa norte-americana sob o governo de Donald Trump. O documento de 34 páginas, assinado pelo secretário de Defesa Pete Hegseth, prevê "ação decisiva" contra aliados regionais que não alinharem suas ações aos interesses de Washington, utilizando como exemplo ilustrativo a possível captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro.
Prioridades geopolíticas e ameaças ao Hemisfério Ocidental
O texto coloca como prioridades máximas o controle estratégico da Groenlândia e do Canal do Panamá, enquanto limita significativamente o apoio tradicional aos aliados na Europa e na Ásia. Simultaneamente, busca conter a influência chinesa sem recorrer a conflitos armados diretos, marcando uma mudança radical na postura global norte-americana.
Este documento serve como instrumento para implementar os princípios delineados pela Estratégia de Segurança Nacional, editada em 5 de dezembro, que já havia causado espanto internacional pela drástica reorientação do país mais poderoso do mundo. Assim como no texto anterior, a nova estratégia visualiza os EUA em uma posição mais isolada globalmente, porém reservando para si o direito de agir com violência para garantir seus interesses nacionais, com foco especial no Hemisfério Ocidental.
Doutrina Trump-Monroe e ameaças explícitas
O documento resgata e adapta o chamado Corolário Trump à Doutrina Monroe, desenhando cenários de intervenção militar. "Vamos nos engajar em boa fé com nossos vizinhos e parceiros, mas vamos garantir que eles respeitem e façam a parte deles para defender nossos interesses comuns. Onde eles não o fizerem, nós estaremos prontos para tomar ação decisiva e focada", afirma explicitamente o texto.
Citando a Operação Determinação Absoluta – referência ao ataque à Venezuela em 3 de janeiro – o documento reforça a disposição de aplicar essa doutrina com "rapidez, força e precisão". Esta retórica busca revitalizar a doutrina original de 1823, que visava proteger as Américas do colonialismo europeu, transformada posteriormente em instrumento imperialista em 1904 pelo então presidente Theodore Roosevelt.
Controle de áreas estratégicas e tensões com aliados
O secretário Hegseth escreve: "Nós vamos garantir o acesso militar e comercial dos EUA a áreas chave, especialmente o canal do Panamá, o golfo da América [como Trump chama o golfo do México] e a Groenlândia", em referência à apelidada Doutrina Donroe (fusão de Donald e Monroe).
A Groenlândia permanece no centro de uma crise contínua entre Trump e seus aliados europeus na OTAN, com o presidente norte-americano reafirmando recentemente seu desejo de controlar a ilha dinamarquesa, embora tenha descartado o uso imediato de tropas para tal objetivo. Já o Canal do Panamá recoloca na mesa geopolítica uma obra historicamente controlada por americanos, com Trump tendo exigido anteriormente a saída de empresas chinesas da operação do local, sugerindo até ação militar.
Abandono de aliados tradicionais e nova postura global
Os sinais para aliados tradicionais são particularmente sombrios:
- À União Europeia, o documento afirma que a Rússia de Vladimir Putin é problema principalmente dos países do flanco leste, sugerindo que o continente deve se defender sozinho contra Moscou
- A Ucrânia fica dependente do apoio europeu contra a invasão russa, apesar da maioria das armas utilizadas serem de origem americana
- A Coreia do Sul é instruída a pagar sua própria conta de defesa contra o Norte comunista, liberando recursos militares norte-americanos estacionados no país
Notavelmente, a defesa da democracia deixa de ser um valor a ser promovido, representando mais um prego no caixão da ordem internacional vigente desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Relação com China e modernização militar
Em contraste com a estratégia do governo Biden de 2022, que classificava a China como adversário a ser combatido, o novo documento reduz o tom do conflito: "Nosso objetivo não é dominar a China, nem estrangulá-la ou humilhá-la. Ele é simples: prevenir que qualquer um, incluindo a China, seja capaz de nos dominar".
O texto não menciona explicitamente Taiwan, mas cita a necessidade de manter "uma forte defesa de negação" nos arquipélagos aliados que cercam o rival asiático. Outros itens incluem a renovação do arsenal nuclear, a criação do escudo antimísseis Domo Dourado e a defesa do que Hegseth considera o "espírito guerreiro" das Forças Armadas norte-americanas.
Este quinto documento desde sua estreia em 2005 parece destinado a ser desafiado pela realidade geopolítica. Enquanto defende que Israel e países do Golfo podem conter o Irã, uma armada americana se mobiliza na região, aumentando riscos de conflito. Reafirmando uma autoimagem imperial centrada no conceito de Paz pela Força, a estratégia não oferece alternativas reais além do interesse americano à já combalida ordem global.