Uma nova frente de tensão geopolítica se desenha no Ártico, com a Groenlândia no centro das atenções. O ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reacendeu declarações sobre a necessidade de seu país assumir o controle da maior ilha do mundo, atualmente um território autônomo sob a Dinamarca.
O interesse americano e a resposta europeia
Em suas afirmações, Trump deixou claro seu objetivo: os Estados Unidos devem, de alguma forma, controlar a Groenlândia. Segundo sua visão, se isso não acontecer, o território estratégico cairá nas mãos de rivais como China e Rússia. A declaração, feita publicamente, ecoa um interesse antigo, já ventilado durante seu mandato na Casa Branca.
No entanto, a Europa não pretende ficar à margem. Um grupo de nações europeias, com Reino Unido e Alemanha na liderança, já discute planos concretos para ampliar a presença militar na região da Groenlândia. O movimento é visto como uma resposta direta às declarações de Trump e um sinal de que o continente leva a sério a segurança no Ártico.
Um porta-voz do governo alemão confirmou que as conversas sobre o fortalecimento da presença na região estão ocorrendo no âmbito da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). A aliança militar ocidental parece estar redirecionando parte de seu foco estratégico para o extremo norte do planeta.
Um novo eixo de competição global
Em entrevista ao Conexão Record News na segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, o professor de direito e relações internacionais Kleber Galerani analisou a movimentação. Ele explica que, ao reforçar a segurança no Ártico através da OTAN, os aliados estão traçando um novo mapa de rivalidade estratégica.
“Os países aliados estão essencialmente mapeando um novo eixo de competição estratégica”, afirmou Galerani. Segundo ele, este eixo se estende da Europa Ocidental até a região Indo-Pacífico e envolve fatores cruciais para o poder no século 21:
- Controle de rotas marítimas estratégicas que estão se abrindo com o degelo.
- Acesso a vastos recursos naturais ainda inexplorados.
- Capacidade de projeção de poder em regiões remotas e anteriormente inacessíveis.
O professor ressalta que o Ártico alcançou um nível de importância geopolítica equivalente a regiões historicamente tensas, como o Báltico ou o Indo-Pacífico. A defesa coletiva do Ártico simboliza, portanto, uma aliança que se adapta às ameaças emergentes.
O tabuleiro do futuro: quem controla as rotas do norte?
A análise de Galerani aponta para um futuro onde o equilíbrio de forças globais pode ser decidido no gelo. “No tabuleiro geopolítico atual, quem controla as rotas do norte pode influenciar o equilíbrio de forças no futuro”, declarou o especialista.
O degelo acelerado no Polo Norte está criando novas passagens navegáveis, como a Rota do Mar do Norte, que encurtam drasticamente a distância entre continentes. O controle sobre essas rotas não é apenas uma questão logística ou econômica, mas uma vantagem militar e estratégica de primeira ordem.
A corrida pela Groenlândia e pelo Ártico, portanto, vai muito além de um simples interesse territorial. Ela representa a primeira grande disputa pela configuração do poder global em um mundo fisicamente transformado pelas mudanças climáticas. Enquanto Trump fala em controle direto, a Europa aposta em uma resposta coletiva e institucional via OTAN, configurando um embate de visões sobre como exercer influência nas próximas décadas.