Decadência do petróleo venezuelano: do auge à crise no Lago Maracaibo
Crise da PDVSA e decadência do petróleo na Venezuela

Acima da maior reserva de petróleo do mundo, equipamentos enferrujados e tecnologia obsoleta pintam um cenário de abandono. Esta é a realidade atual do Lago Maracaibo, no noroeste da Venezuela, um espelho da profunda crise que assola a indústria petrolífera do país, outrora sua principal riqueza.

O cenário de abandono no coração petrolífero

O Lago Maracaibo, com seus 150 km de comprimento por 50 km de largura, é palco de uma decadência visível. As plataformas de exploração, que deveriam ser símbolos de modernidade, estão desgastadas, cobertas de ferrugem e operando com tecnologia ultrapassada. A exploração na área, que teve seu auge na década de 1970, é conduzida pela estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA).

Rafael Zambrano, um trabalhador da PDVSA desde os anos 90, mostra uma das plataformas mais emblemáticas. "Era tecnologia de ponta, agora está abandonada", lamenta. A empresa não conseguiu se manter atualizada porque a indústria petrolífera depende de investimento constante em manutenção, algo que foi severamente comprometido.

Entre os principais motivos para a decadência da PDVSA e, por consequência, da indústria, estão:

  • Corrupção e má administração dentro da empresa e do governo.
  • Sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, que limitaram o acesso a mercados e tecnologia.
  • A queda mundial do preço do petróleo em diversos momentos, estrangulando a principal fonte de receita do país.

Da "Venezuela Saudita" à Revolução Bolivariana

A história petrolífera da Venezuela é marcada por contrastes extremos. O país, antes uma economia agrícola baseada na exportação de café e cacau, descobriu sob as águas do Lago Maracaibo a maior reserva de petróleo do planeta. Nos anos 70, essa riqueza transformou a nação, que chegou a ser chamada de "Venezuela Saudita".

Na época, a produção alcançava 3 milhões de barris por dia, e uma pequena elite vivia com uma qualidade de vida comparável à de Paris. No entanto, a imensa riqueza não se distribuía. Enquanto uma minoria vivia no luxo, favelas e pobreza extrema dominavam o panorama para a maioria da população. Esta desigualdade criou um terreno fértil para a revolução liderada pelo tenente-coronel Hugo Chávez no início dos anos 90.

Eleito presidente em 1998, Chávez colocou o petróleo no centro de seu projeto da Revolução Bolivariana. A renda do óleo financiou programas sociais massivos. "Nós diminuímos a pobreza de 70% para 7%. Foram avanços sociais importantes", afirmou Rafael Ramirez, ex-ministro do Petróleo do governo Chávez. Nove milhões de famílias ganharam acesso à moradia e o ensino superior se tornou um sonho possível para muitos.

A era Maduro: repressão, crise e sobrevivência política

Com a saúde debilitada, Chávez escolheu Nicolás Maduro como seu sucessor. Maduro, que nos anos 1990 era motorista de ônibus em Caracas e ascendeu ao filiar-se ao Partido Socialista e receber treinamento em Cuba, assumiu a presidência em 2013 como herdeiro político de Chávez.

No entanto, seu governo, ao longo de 12 anos, tomou um rumo distinto. Eleito por margem apertada e enfrentando desconfiança interna, Maduro consolidou o poder através de medidas autoritárias e repressão. O ex-general Manuel Figuera, que comandou a inteligência, compara a polícia política do regime à Gestapo de Hitler. Antigos aliados, como o próprio Rafael Ramirez, foram perseguidos e forçados ao exílio.

A procuradora-geral Luisa Ortega, antes defensora do regime, rompeu com Maduro após denunciar execuções e abusos, afirmando que mais de oito mil venezuelanos foram executados por forças estatais. A crise econômica, agravada pelo abandono da indústria do petróleo, levou a uma pressão internacional. Em 2019, os EUA, sob Donald Trump, reconheceram Juan Guaidó como presidente legítimo, numa tentativa fracassada de derrubar Maduro.

O cenário geopolítico, porém, mudou. Com a guerra na Ucrânia e as sanções ao petróleo russo, o governo Joe Biden suspendeu algumas restrições ao óleo venezuelano, devolvendo relevância internacional a Maduro. O Ocidente voltou a se aproximar do regime em busca de energia, uma reviravolta que fortaleceu sua posição.

Para se manter no poder, Maduro investiu pesado em propaganda, criando até um super-herói animado chamado "Super Bigode" para reforçar sua imagem de defensor do povo. Agora, o país vive um momento de expectativa: a população continuará a apoiar seu "herói" ou decidirá virar a página desta era marcada pela riqueza mal distribuída, pela decadência industrial e pelo autoritarismo.