Presidente dos EUA Formaliza Conselho da Paz em Cerimônia em Davos
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou oficialmente nesta quinta-feira (22) a criação do chamado Conselho da Paz, um órgão que o governo americano espera utilizar para suplantar as Nações Unidas, embora o próprio Trump negue essa intenção publicamente. A cerimônia ocorreu às margens do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, evento que já foi ofuscado pelas recentes investidas diplomáticas do líder republicano.
Origem e Expansão do Conselho
Inicialmente concebido como um instrumento para governar a Faixa de Gaza como parte de um cessar-fogo na região, o conselho rapidamente ganhou contornos mais amplos. Esse movimento tem sido recebido com preocupação significativa por países como França, Canadá, Reino Unido e Brasil, que veem a iniciativa como uma ameaça ao multilateralismo tradicional.
Durante seu discurso, Trump não poupou críticas à ONU, afirmando: "Eu sempre disse que as Nações Unidas têm um potencial tremendo, mas não o usou." Ele destacou que o Conselho da Paz, em combinação com a ONU, poderia se tornar "algo único para o mundo", indicando claramente suas ambições de que o grupo não se limite apenas à questão palestina.
Composição Polêmica e Estrutura de Poder
O conselho conta com a participação de 24 países que já aceitaram o convite de Trump. Desses, 17 são regimes autocráticos ou ditatoriais, segundo dados do Instituto V-Dem, que monitora parâmetros democráticos anualmente. Entre os exemplos estão Hungria, Qatar e Arábia Saudita, nações que mantêm relações estreitas com o governo Trump.
Mesmo as democracias plenas que aderiram, como Argentina, Israel e Paraguai, são governadas por líderes alinhados às políticas conservadoras do presidente americano. A estrutura do órgão permanece pouco clara, mas sabe-se que Trump será o presidente e terá preponderância sobre praticamente todas as decisões, incluindo renovação de mandatos e definição do comitê executivo para a reconstrução de Gaza.
Reações Internacionais e Posição do Brasil
Países europeus como França, Reino Unido e Noruega já recusaram participar do conselho, em meio às tensões geradas pelas recentes investidas de Trump sobre a Groenlândia, território dinamarquês. Enquanto isso, o Brasil ainda avalia sua participação. A diplomacia brasileira, sob o presidente Lula, tem mantido conversas com outros países convidados, buscando equilibrar a tradição de participação em fóruns internacionais com a preocupação de que a iniciativa americana possa esvaziar a ONU.
Nesta quinta-feira, Lula conversou por telefone com o líder da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, sobre a situação em Gaza, mas o tema do conselho não foi abordado diretamente. A postura cautelosa do Brasil reflete o dilema estratégico entre engajar-se em novos espaços de diálogo ou preservar a legitimidade das instituições multilaterais estabelecidas.
Discurso de Trump e Implicações Futuras
Em seu discurso, Trump fez questão de elogiar os líderes presentes, muitos dos quais são figuras controversas no cenário global. Ele também revisitou supostas conquistas de seu governo, como mediações de conflitos e a operação militar em Caracas que capturou Nicolás Maduro. As críticas à Otan e a aliados europeus marcaram mais um capítulo nas rusgas diplomáticas que caracterizam sua administração.
O Conselho da Paz, com seu logo que mostra a Terra tendo os EUA no centro, simboliza uma mudança profunda na política externa americana, priorizando alianças seletivas sobre o multilateralismo tradicional. Seu impacto nas relações internacionais e no conflito israelense-palestino ainda está por ser completamente compreendido, mas já gera divisões significativas na comunidade global.