Chefe do instituto de inflação argentino renuncia após divergências com governo Milei
O diretor do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) da Argentina, Marco Lavagna, apresentou sua renúncia nesta segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, após divergências significativas com o governo do presidente Javier Milei sobre o momento de implementar uma nova metodologia para calcular a inflação oficial do país.
Divergência sobre timing da nova metodologia
O ministro da Economia, Luis Caputo, confirmou a saída de Lavagna e explicou que o conflito central girava em torno do timing para aplicar o novo índice de preços ao consumidor. Enquanto Lavagna defendia a implementação imediata da nova metodologia, o governo Milei preferia aguardar até que o processo de desinflação estivesse "totalmente consolidado".
Caputo justificou a posição governamental afirmando que "como nós estamos muito confiantes de que a inflação vai cair, não queremos dar motivo para que depois digam: caiu porque mudaram o índice". A administração teme que uma mudança metodológica neste momento possa gerar questionamentos sobre a autenticidade da queda inflacionária que vem sendo registrada.
Contexto da inflação argentina
A Argentina vive um momento crucial na luta contra a inflação, um flagelo histórico que atingiu níveis alarmantes nos últimos anos. Os dados oficiais mostram uma queda significativa:
- Inflação de 211,4% em 2023
- Redução para 31,5% em 2025
Este último número representa o nível mais baixo em oito anos e é amplamente divulgado pelo governo como seu principal sucesso econômico. A desvalorização do peso pela metade em 2023, logo após a posse de Milei, foi um dos fatores que contribuíram para esta trajetória descendente.
Importância da mudança metodológica
A nova metodologia que estava sendo preparada sob a gestão de Lavagna representaria uma atualização significativa na forma como a Argentina mede a inflação. A metodologia anterior, considerada defasada, utilizava uma cesta de preços baseada em padrões de consumo de 2004, que não incluía despesas com:
- Serviços de telefonia móvel
- Acesso à internet
- TV a cabo
- Outros gastos contemporâneos
A nova proposta seria baseada na pesquisa de renda e gastos das famílias de 2017-2018 e seguiria recomendações internacionais atualizadas, prometendo refletir com maior precisão os hábitos de consumo dos argentinos na atualidade.
Consequências imediatas e contexto político
Com a saída de Lavagna, o Indec passa a ser comandado por Pedro Lines, atual diretor-técnico e número dois da entidade. A renúncia ocorre em um contexto político sensível, já que Lavagna é um economista próximo do líder opositor peronista e ex-candidato presidencial Sergio Massa.
Sua permanência à frente do Indec após a posse de Milei em dezembro de 2023 era vista como um sinal de transparência e credibilidade para o órgão responsável por uma das estatísticas mais importantes e politicamente sensíveis do país. A saída acontece pouco antes da data prevista para divulgação do primeiro resultado sob a nova metodologia, que seria em 10 de fevereiro.
Este episódio não é isolado no Indec. No final de 2025, a instituição já havia registrado várias renúncias em meio a conflitos relacionados aos baixos salários dos funcionários, indicando um ambiente institucional conturbado que agora perde seu principal dirigente em circunstâncias que revelam tensões entre a independência técnica e as considerações políticas do governo.