Um ataque cibernético de grande impacto interrompeu as transmissões da televisão estatal do Irã no domingo, 18 de janeiro de 2026. Hackers invadiram o sinal via satélite da Islamic Republic of Iran Broadcasting (IRIB) e exibiram mensagens de apoio aos protestos antigovernamentais que assolam o país, incluindo um discurso do príncipe herdeiro exilado e uma promessa de ajuda dos Estados Unidos.
Conteúdo da transmissão hackeada
Durante a invasão, foram veiculadas imagens e textos dirigidos diretamente à população iraniana e às forças de segurança. Um vídeo apresentava Reza Pahlavi, filho do último Xá do Irã, que deixou o país em 1978 para treinamento nos EUA e nunca pôde retornar após a Revolução Islâmica de 1979. Em seu discurso, Pahlavi fez um apelo direto aos militares.
"Tenho uma mensagem especial para os militares. Vocês são o Exército Nacional do Irã, não o Exército da República Islâmica. Vocês têm o dever de proteger suas próprias vidas. Não lhes resta muito tempo", advertiu o príncipe exilado, conclamando os agentes de segurança a se unirem ao povo nos protestos.
Além do vídeo, textos sobrepostos nas transmissões afirmavam que o presidente americano Donald Trump prometeu repetidamente ficar ao lado do povo iraniano na luta contra o regime teocrático. Uma das mensagens era particularmente direta: "Ajuda está a caminho". Outras mensagens citavam o apoio da Europa aos manifestantes e acusavam as autoridades iranianas de tentarem manter a população "no escuro".
Contexto de protestos e repressão
O ataque hacker ocorre em um momento de extrema tensão no Irã. Desde o final de dezembro, grandes protestos antigovernamentais se espalharam pelo país, inicialmente motivados pela grave crise econômica, com alta inflação e desvalorização da moeda, mas que rapidamente evoluíram para críticas diretas ao regime.
A repressão tem sido violenta. Dados da Human Rights Activistas News Agency (HRANA) indicam que pelo menos 3.766 pessoas morreram durante os protestos, com outros 8.949 casos de morte sob investigação. Fontes ouvidas pela Reuters elevam esse número para mais de 5.000 mortos. Estima-se que mais de 20 mil manifestantes tenham sido detidos.
O governo iraniano impôs um bloqueio geral de internet, justamente no momento do ataque à IRIB, dificultando o acesso da população a informações alternativas. A agência de notícias estatal Fars confirmou a invasão por uma "fonte desconhecida", mas não comentou o conteúdo transmitido.
Reações internacionais e histórico de ciberataques
O presidente dos EUA, Donald Trump, vinha adotando um tom ameaçador em relação ao Irã, sugerindo opções militares e instando os iranianos a "tomarem as instituições". Na semana do ataque, porém, ele afirmou que o número de mortes estaria diminuindo. Um dia após essa declaração, Washington anunciou novas sanções econômicas contra autoridades de segurança e bancárias iranianas.
Em resposta, o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, culpou publicamente Trump pelas mortes ocorridas nos protestos no sábado, 17 de janeiro. "Consideramos o presidente americano culpado pelas mortes, pelos danos e pelas acusações formuladas contra a nação iraniana", disse Khamenei, alegando uma "conspiração americana" para subjugar o país.
Este não é um incidente isolado. Em 2022, durante protestos pelos direitos das mulheres, canais estatais também foram hackeados, com transmissão de imagens de líderes da oposição exigindo a morte de Khamenei. O caso mais antigo remonta a 1986, quando o jornal The Washington Post revelou que a CIA ajudou aliados do príncipe Pahlavi a transmitirem uma mensagem clandestina por 11 minutos na TV nacional iraniana.
O ataque cibernético de janeiro de 2026 expõe, mais uma vez, a fragilidade dos meios de comunicação controlados pelo Estado em um contexto de conflito político intenso, utilizando a tecnologia como arma no campo da informação e do protesto.