O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia ganhou um novo capítulo no cenário político brasileiro, com movimentações no Congresso Nacional que antecedem o fim oficial do recesso parlamentar. A decisão de parlamentares de criar uma força-tarefa dedicada ao tema e marcar uma reunião para o dia 28 de janeiro sinaliza a urgência atribuída à matéria, em um 2026 marcado pelo calendário eleitoral.
Força-tarefa parlamentar e a corrida contra o tempo eleitoral
Lideranças da Câmara dos Deputados decidiram não esperar pelo retorno oficial dos trabalhos legislativos, previsto para 5 de fevereiro. A antecipação das discussões foi interpretada pelo cientista político Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice, como um gesto positivo do Legislativo em relação à formalização do pacto com os europeus. A análise foi feita durante participação no programa VEJA Ponto de Vista, apresentado por Laísa Dall’Agnol, na segunda-feira, 19 de janeiro.
No entanto, o ano de eleições presidenciais impõe um ritmo peculiar à agenda do Congresso. A avaliação de especialistas é de que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá uma janela de oportunidade limitada para aprovar suas prioridades. A tendência é que o Parlamento mantenha um ritmo de trabalho intenso apenas até o mês de junho, desacelerando significativamente no segundo semestre, em função da campanha eleitoral.
Cenário de negociações difíceis e articulações partidárias
Além do acordo internacional, a pauta do Congresso na retomada será carregada. A análise de dezenas de vetos presidenciais está na lista de tarefas, o que promete acirrar os ânimos no plenário. Cristiano Noronha projeta que o presidente Lula enfrentará um cenário de negociações difíceis logo no início do ano legislativo.
Um complicador adicional vem das articulações partidárias em vista de 2026. Partidos que hoje compõem a base governista já miram os próprios projetos para a disputa presidencial. O União Brasil tem como pré-candidato o governador de Goiás, Ronaldo Caiado. O PSD trabalha com o nome do governador do Paraná, Ratinho Júnior. Já o PP, partido citado como próximo ao ex-presidente Jair Bolsonaro, tende a apoiar um candidato alinhado a ele.
O apoio estratégico do agronegócio
Apesar do ambiente político turbulento, o acordo Mercosul-UE conta com um aliado de peso dentro do Congresso: a bancada do agronegócio. O setor é um dos mais interessados nos benefícios comerciais que o tratado pode trazer, especialmente para a exportação de produtos agrícolas, que hoje enfrentam barreiras e restrições no mercado europeu. Este apoio pode ser um fator crucial para destravar a aprovação do acordo.
Em resumo, a formalização do acordo entre Mercosul e União Europeia se tornou um teste de fogo para a relação entre o Executivo e o Legislativo em um ano eleitoral. A disposição do Congresso em discutir o tema antes do previsto é um sinal positivo, mas o tempo curto e as ambições políticas individuais dos partidos criam um caminho cheio de obstáculos para a concretização deste antigo projeto de integração comercial.