O Partido dos Trabalhadores (PT) deve aprovar ainda nesta quinta-feira, 29 de fevereiro, uma resolução interna que utiliza o escândalo do Banco Master como elemento central para intensificar as críticas da legenda ao mercado financeiro brasileiro. O documento, ao qual a reportagem teve acesso exclusivo, também estabelece como bandeiras prioritárias a implementação da tarifa zero no transporte público e a redução da jornada de trabalho semanal, dois temas que devem ganhar destaque na campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Críticas estruturais ao sistema financeiro
O texto da resolução afirma, de maneira contundente, que "os escândalos financeiros, como o do Banco Master e outros, que expõem a corrupção e a promiscuidade entre parte do mercado e o crime organizado" revelam que a disputa política em curso no país é de natureza estrutural. A proposta ainda menciona outros fatores considerados determinantes, como "a permanente ofensiva da extrema direita" contra as instituições democráticas.
Segundo a visão que será formalizada pelo partido, a atual conjuntura política representa um enfrentamento direto entre dois projetos antagônicos para o Brasil. De um lado, estaria um projeto que defende a democracia, o desenvolvimento com soberania nacional e a justiça social. Do outro, um projeto que busca, nas palavras do documento, "subordinar o Estado brasileiro aos interesses do capital financeiro, das plataformas digitais sem controle democrático e de uma agenda autoritária".
O caso Banco Master e suas repercussões
O escândalo do Banco Master, que ganhou notoriedade nacional no ano passado, envolve figuras proeminentes do mercado financeiro e da política brasileira. Daniel Vorcaro, proprietário do banco, ficou detido por doze dias em 2023 e atualmente cumpre medidas cautelares com o uso de tornozeleira eletrônica. O caso alcançou proporções ainda maiores quando o Banco Central do Brasil decidiu barrar a aquisição do Master pelo BRB, banco estatal do Distrito Federal.
As investigações em andamento indicam que as perdas financeiras para a empresa pública do governo distrital podem atingir a impressionante cifra de R$ 5 bilhões, conforme revelado em um dos depoimentos colhidos pelos investigadores. Este episódio serve como pano de fundo para as críticas que o PT pretende amplificar em sua resolução partidária.
Disputa eleitoral como confronto de projetos
O documento em discussão enfatiza que a próxima disputa eleitoral presidencial não se limitará a uma competição entre candidaturas individuais, mas representará um embate entre visões de país radicalmente opostas. "De um lado, o projeto democrático, popular e soberano que recolocou o povo no centro das decisões do Estado; de outro, o projeto autoritário, excludente e subordinado aos interesses do capital rentista e da extrema direita global, representado pelo bolsonarismo", afirma o texto.
O cenário político para as eleições deste ano começa a se definir com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) indicando seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como representante do bolsonarismo na corrida presidencial. Paralelamente, forças políticas mais centristas têm articulado esforços para apresentar uma terceira via que dispute o poder com tanto Flávio quanto Lula.
Posicionamento sobre juros e segurança pública
Além das críticas ao mercado financeiro, a resolução do PT também defende a redução imediata das taxas de juros no país. Esta posição ganha relevância após a decisão do Banco Central, na quarta-feira (28), de manter a taxa Selic em 15% ao ano, ainda que com sinalização de um possível corte já no mês de março.
O documento ainda aborda, de forma inédita para os padrões do partido, a questão da segurança pública – tradicionalmente considerada uma deficiência histórica na agenda petista. Há consenso no meio político de que este tema será um dos principais eixos da campanha presidencial de 2026.
A resolução critica a abordagem da extrema direita sobre o assunto: "A extrema direita tenta disputar o imaginário social a partir do debate da segurança pública de forma irresponsável e sem apresentar soluções concretas, mobilizando termos como 'narcoterrorismo'". Segundo o texto, esta narrativa opera através do medo, reforça ações autoritárias e oferece respostas simplistas para problemas complexos, explorando a sensação de insegurança vivida pela população.
Diretrizes para militância e propostas sociais
O Partido dos Trabalhadores instruirá formalmente seus militantes e representantes a defenderem publicamente um conjunto específico de propostas sociais e trabalhistas. As principais bandeiras incluem:
- A redução da jornada de trabalho semanal
- A implementação da tarifa zero no transporte coletivo em todo o território nacional
- Medidas que ampliem a seguridade social para trabalhadores de aplicativos e da economia informal
Estas propostas devem constituir a base programática que o PT levará às eleições deste ano, consolidando uma plataforma que combina críticas ao sistema financeiro com medidas concretas de proteção social e direitos trabalhistas.