Powell evita embates políticos em coletiva tensa do Fed e mantém foco nos dados econômicos
Powell evita política em coletiva tensa do Fed e foca em dados

Mais política, menos juros: as respostas evasivas de Powell em dia de 'superquarta'

Em um ambiente carregado de tensão institucional, o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, conduziu uma coletiva de imprensa marcada por evasivas e cautela. A decisão técnica de manter as taxas de juros inalteradas, amplamente esperada pelo mercado, foi ofuscada pelo clima político que pairava sobre a sala.

Investigações e intimações criam cenário inédito

Pela primeira vez desde que veio a público uma investigação criminal do Departamento de Justiça relacionada aos custos da reforma dos prédios históricos do Fed, Powell enfrentou questionamentos diretos sobre sua conduta e o futuro da autoridade monetária. O presidente também recebeu intimações enviadas à instituição, criando um cenário de pressão sem precedentes recentes.

A resposta foi sistematicamente evasiva. Questionado sobre sua presença na audiência da Suprema Corte envolvendo o caso da diretora Lisa Cook - gesto criticado pelo secretário do Tesouro, Scott Bessent, como politização do cargo - Powell evitou confronto direto. "Não respondo a comentários de outras autoridades", afirmou, tentando manter o distanciamento protocolar.

Tradição institucional versus política partidária

Ainda assim, Powell justificou sua ida ao tribunal descrevendo o caso como "talvez o caso jurídico mais importante nos 113 anos de história do Fed". Ao citar Paul Volcker, que compareceu à Suprema Corte em 1985, o presidente tentou enquadrar sua decisão dentro da tradição institucional, não da política partidária.

Porém, o simples fato de precisar explicar sua presença no tribunal já revela um ambiente onde as fronteiras entre política fiscal, jurídica e monetária começam a se embaralhar. O dano à imagem de neutralidade técnica já estava feito.

Silêncios reveladores sobre futuro e intimações

A tensão ficou ainda mais evidente quando Powell foi questionado sobre as intimações enviadas ao Fed. "Não tenho nada para informar sobre isso hoje", respondeu, encerrando abruptamente o assunto. Perguntado pela Bloomberg se pretende permanecer no cargo após o término de seu mandato em maio, voltou a se esquivar de uma resposta direta.

O presidente também se recusou a comentar os movimentos recentes do dólar, devolvendo o tema ao Departamento do Tesouro. Embora tecnicamente correto, esse posicionamento ganha nova leitura em meio à crise latente: revela um banco central retraído, consciente de que cada palavra pode ser instrumentalizada fora de contexto.

Autonomia do Fed sob ameaça crescente

Durante décadas, o Federal Reserve cultivou cuidadosamente uma imagem de tecnocracia acima da política. Essa blindagem institucional começa agora a mostrar fissuras preocupantes. O maior desafio atual do Fed não está na curva de juros, mas na preservação de sua autonomia frente a pressões políticas crescentes.

A sucessão de Powell já domina conversas em Washington, com a possibilidade de um novo presidente com perfil mais alinhado politicamente preocupando investidores e economistas. Um líder potencialmente mais tolerante à inflação poderia comprometer a credibilidade do regime monetário americano, construída ao longo de décadas.

Mercado calmo, mas vigilante

O mercado financeiro, por ora, mantém relativa calma. As expectativas de inflação seguem ancoradas e os rendimentos de longo prazo não sinalizam fuga de ativos em massa. Porém, a história econômica ensina que a confiança em bancos centrais costuma se perder rapidamente, exigindo anos para ser reconstruída.

A coletiva de Powell nesta quarta-feira revelou um banco central em posição defensiva, navegando águas políticas turbulentas enquanto tenta manter o foco em seus objetivos monetários tradicionais. O equilíbrio entre autonomia técnica e pressão política nunca pareceu tão delicado para a instituição que comanda a política monetária da maior economia do mundo.