Protecionismo Americano em Davos Acende Luz Amarela para o Brasil
Quando o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, discursou no Fórum Econômico Mundial em Davos há alguns dias, uma luz amarela de alerta se acendeu para observadores da economia global. Em tom firme e deliberado, ele defendeu medidas protecionistas incluindo tarifas comerciais, repatriação de cadeias produtivas e um fechamento seletivo da economia americana como resposta estratégica aos desafios da globalização.
O Sinal que Desperta Fantasmas do Passado Brasileiro
O sinal emitido pelos Estados Unidos não se destina apenas ao mercado interno americano, mas reverbera por todo o mundo. Para o Brasil, essa inflexão protecionista desperta fantasmas econômicos que muitos julgavam superados. A guinada americana, ainda que limitada e seletiva em sua natureza, cria um ambiente propício para que velhas ideias ressuscitem com nova retórica e aparente legitimidade internacional.
No contexto brasileiro, essa tendência frequentemente se traduz em uma tentação recorrente: utilizar o cenário internacional como justificativa para políticas de fechamento comercial, proteção excessiva e substituição de importações. Trata-se de um erro histórico que o país já conhece bem, um equívoco caro cujas consequências ainda reverberam na estrutura produtiva nacional.
As Lições Amargas da Substituição de Importações
A política de substituição de importações, inspirada originalmente no pensamento estruturalista da Cepal no período pós-guerra, foi testada exaustivamente ao longo do século XX no Brasil. Seu legado permanece inequívoco décadas depois: indústrias excessivamente protegidas, com baixa capacidade inovadora, dependentes de subsídios permanentes e incapazes de competir em mercados globais.
Esse modelo criou uma economia baseada em privilégios setoriais em vez de eficiência produtiva, um sistema de exceções em lugar de ganhos de produtividade sustentáveis. Poucos exemplos ilustram melhor essa dinâmica do que a Lei da Informática, vendida como política de inovação tecnológica mas que produziu décadas de renúncia fiscal bilionária, baixa densidade tecnológica real e preços artificialmente elevados para consumidores e empresas brasileiras.
O Brasil não conseguiu criar um ecossistema global de tecnologia através dessa abordagem. Em vez disso, formou bolsões protegidos de competição, desconectados das fronteiras do conhecimento internacional e dependentes do Estado para sua sobrevivência básica.
O Padrão que se Repete em Diversos Setores
O mesmo padrão problemático se repetiu em múltiplos setores da economia brasileira ao longo das décadas: conteúdo local compulsório, reservas de mercado artificialmente criadas, compras públicas excessivamente direcionadas e crédito subsidiado como política estrutural permanente. O resultado nunca foi a tão almejada autonomia produtiva, mas sim uma dependência crônica de proteções estatais, baixa produtividade sistêmica e atraso tecnológico acumulado.
Entendendo a Diferença Estrutural entre EUA e Brasil
O perigo atual reside em uma leitura equivocada do que realmente ocorre nos Estados Unidos. Há uma confusão perigosa entre instrumentos de política e estrutura econômica fundamental. A força da economia americana não decorre primariamente de tarifas ou fechamento comercial, mas de ativos estruturais que o Brasil ainda não desenvolveu plenamente.
Os Estados Unidos possuem um mercado de capitais profundo e sofisticado, universidades de excelência mundial, proteção rigorosa à propriedade intelectual, capacidade comprovada de atrair talentos globais e a moeda que ancora todo o sistema financeiro internacional. Essa base permite que os americanos experimentem políticas mais protecionistas ocasionalmente, pois partem de uma posição de riqueza acumulada, capital humano qualificado e institucionalidade robusta.
O Brasil, quando tentou seguir caminhos semelhantes no passado, apenas conseguiu institucionalizar a ineficiência produtiva e criar barreiras ao desenvolvimento econômico sustentável.
O Caminho da Integração versus o Isolamento
Enquanto alguns discursos internacionais apontam para tendências de fechamento, o avanço nas negociações do acordo entre Mercosul e União Europeia sinaliza precisamente o caminho oposto: mais integração comercial, mais concorrência saudável e mais disciplina produtiva. Esta não é uma questão de ideologia liberal abstrata, mas de realismo econômico fundamentado em evidências históricas.
Países que se integram adequadamente aos fluxos comerciais globais tendem a crescer mais consistentemente, inovar mais intensamente e acumular mais capital produtivo ao longo do tempo. A agenda estratégica brasileira não deve estar em erguer muros protecionistas, mas em remover obstáculos internos que impedem nossa competitividade.
A Verdadeira Agenda para Soberania Econômica
A construção de soberania econômica genuína passa necessariamente por reformas estruturais internas: um sistema tributário funcional e simplificado, segurança jurídica previsível, infraestrutura eficiente e moderna, e inovação tecnológica liderada pelo setor privado com apoio estatal inteligente. Este é o caminho que constrói capacidades produtivas reais e sustentáveis.
O discurso ouvido em Davos deve servir como alerta preventivo, não como fonte de inspiração para políticas econômicas. O Brasil não pode permitir que a guinada protecionista americana seja utilizada como álibi para ressuscitar ideias já testadas e comprovadamente fracassadas. Já conhecemos esse filme histórico e sabemos exatamente como ele termina: com estagnação, dependência e oportunidades perdidas.
Repetir esses erros agora não representaria apenas um equívoco econômico pontual, mas sim uma escolha consciente pelo atraso em um mundo que avança rapidamente. O momento exige discernimento estratégico e coragem para seguir o caminho da integração competitiva, único capaz de garantir um futuro próspero para a economia brasileira.