O Legado do Ministro da Fazenda: Nunca Assumir os B.O.s
Em uma análise contundente sobre a gestão econômica do governo, o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, desvenda o modus operandi do Ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O artigo, publicado originalmente na revista VEJA, critica a postura recorrente do ministro em atribuir problemas econômicos a fatores externos ou antecessores, evitando assumir responsabilidades diretas.
A Piada das Três Cartas e a Realidade Política
Schwartsman inicia sua reflexão com uma antiga piada política: um dirigente recebe três cartas do antecessor para momentos de crise. A primeira aconselha culpar inimigos externos, a segunda culpar o antecessor, e a terceira simplesmente orienta escrever três novas cartas. O economista aplica essa analogia ao contexto atual, sugerindo que Haddad parece seguir esse roteiro à risca em sua gestão.
Em entrevista recente, o ministro afirmou que o aumento da dívida pública durante sua administração resultou de juros elevados – o chamado inimigo externo – e não de déficits fiscais. Além disso, reclamou de ser julgado pela piora das contas públicas, que teria herdado do governo anterior. No entanto, Schwartsman demonstra que ambas as alegações não correspondem à realidade dos dados econômicos.
Os Números que Desmentem as Narrativas
De acordo com informações publicadas pelo Banco Central, os déficits do atual governo contribuíram com pelo menos 3,3 pontos percentuais do PIB para o crescimento do endividamento público. O economista ressalta que esse valor é conservador, pois não considera o efeito indireto dos gastos governamentais sobre as taxas de juros.
Schwartsman explica que o incentivo ao consumo proveniente das transferências federais obriga o Banco Central a manter juros mais altos para compensar o impacto inflacionário dessas despesas. Simultaneamente, o próprio aumento da dívida exige remuneração maior para os investidores, que demandam compensação pelo risco crescente. A conclusão é inequívoca: maiores gastos são, sim, responsáveis pela dívida mais elevada.
A Herança que Não Era Calamitosa
Outro ponto destacado na análise refuta a ideia de que o governo herdou uma situação fiscal desastrosa. Dados da Instituição Fiscal Independente, órgão apartidário do Senado Federal, revelam que em 2021 e 2022 o governo registrou modestos superávits estruturais. Esses resultados foram transformados em déficits pela atual administração, não por acaso.
Informações da Secretaria do Tesouro Nacional, subordinada ao próprio Ministério da Fazenda, mostram um aumento de 316 bilhões de reais nas despesas federais entre 2022 e os doze meses encerrados em novembro de 2025. Em termos relativos, isso representa uma elevação de 18% para 18,8% do PIB, confirmando a expansão dos gastos públicos como fator central do endividamento.
O Caso do Banco Master e a Inconsistência das Acusações
Na mesma entrevista analisada, o ministro Haddad responsabilizou a direção anterior do Banco Central pelos problemas do Banco Master. Schwartsman aponta a curiosa contradição: sete dos nove integrantes da diretoria foram nomeados pelo atual governo, incluindo o diretor de fiscalização e o presidente da instituição, ambos em funções desde 2023.
O economista não infere responsabilidades diretas, mas destaca que não se trata de antecessores ou inimigos externos. Pelo contrário, a constatação reforça o padrão de atribuição de culpas a terceiros, distanciando-se de qualquer autocrítica ou reconhecimento de falhas na gestão.
O Verdadeiro Legado: A Evasão de Responsabilidade
Schwartsman sintetiza o modus operandi do ministro da Fazenda: em hipótese alguma qualquer problema pode ser de sua responsabilidade. Sempre há algum culpado para sabotar os planos infalíveis de ordenar as contas públicas, mas nunca o próprio ministro. Seu principal legado, segundo o economista, foi jamais assumir seus B.O.s – algo que, ele garante, não se ensinava no mestrado em economia da USP.
A análise conclui que Haddad deve ter aprendido essa postura em outro lugar, destacando a desconexão entre as narrativas oficiais e os dados econômicos concretos. O artigo serve como um alerta sobre a importância da transparência e da responsabilidade na gestão fiscal, elementos fundamentais para a credibilidade das políticas econômicas e a confiança dos mercados.