Governadores em fim de mandato se preparam para dominar o Senado nas eleições de 2026
Uma movimentação política sem precedentes está tomando conta do cenário eleitoral brasileiro, com uma onda de governadores em fim de mandato se preparando para disputar cadeiras no Senado em 2026. Chefes dos Executivos estaduais emergem como favoritos absolutos, podendo formar a maior bancada de governadores já vista nessa casa legislativa, consolidando o Congresso como rota preferencial pós-executivo estadual.
Tendência histórica ganha escala inédita
Nas eleições de 2022, quatro governadores deixaram seus postos antes do término do segundo mandato para concorrer ao Senado, e todos foram bem-sucedidos. Essa tendência, embora não seja nova, vai ganhar uma dimensão inédita em 2026. Dos dezoito chefes de Executivo estadual em fim de mandato, doze já anunciaram que deixarão seus cargos em abril, prazo legal para disputar uma nova eleição. Desses doze, sete confirmaram a tentativa de uma vaga no Senado, três admitem a possibilidade e apenas dois, por enquanto, descartam a ideia.
É provável que a maioria tenha êxito sem esforços sobrenaturais. Após oito anos em linha direta com os eleitores, os governadores são naturalmente mais conhecidos que seus adversários e possuem um cardápio de realizações muito mais vistoso. Além disso, contam com a sempre eficiente máquina administrativa operando a seu favor, o que representa uma tremenda vantagem na largada eleitoral.
Exemplos emblemáticos de liderança nas pesquisas
O Senado vai renovar 54 das 81 cadeiras — duas por estado. Dos governadores candidatos, dez já aparecem liderando as pesquisas de intenção de voto, alguns como favoritos absolutos. O caso de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, é emblemático. Apesar de enfrentar ações de cassação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), acusado de usar a máquina fluminense para vencer as eleições de 2022, ele tem 15 pontos à frente do segundo colocado, segundo levantamento de dezembro pelo Instituto Real Time.
Até meados de 2025, o governador era considerado carta fora do baralho devido à alta reprovação de sua gestão. No entanto, uma operação policial contra o crime organizado em outubro do ano passado, que deixou 122 mortos, inverteu a percepção do eleitorado. A segurança pública, como se sabe, é a principal preocupação dos brasileiros, e esse evento parece ter reconfigurado as chances de Castro.
Controle da máquina como ativo eleitoral poderoso
O controle da máquina administrativa é, de fato, o ativo eleitoral mais poderoso desses candidatos. Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal, não é propriamente um político carismático, mas com um orçamento bilionário, realizou uma infinidade de obras, distribuiu terrenos, duplicou rodovias e ampliou benefícios sociais. Em 2022, foi reeleito no primeiro turno.
Dias depois da recondução, acabou afastado do cargo por dois meses, acusado de omissão nos ataques do 8 de Janeiro, e vem sendo acossado pelas investigações do escândalo do Banco Master. Apesar dos percalços, se as eleições fossem hoje, ele teria uma vaga garantida no Congresso. "Essa é a regra do jogo: quem está no governo tem muito mais possibilidade de articular e ser bem-sucedido em uma candidatura", diz o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Ricardo Cappelli (PSB), adversário do governador.
Futura bancada pode ser ainda maior
A futura bancada de governadores no Senado a partir de 2027 pode ser ainda maior. Bem avaliados, os governadores do Paraná, Ratinho Jr. (PSD), de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil) e de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) — todos em fim de mandato —, se apresentam hoje como candidatos à Presidência da República. É improvável que os três levem esse projeto até o fim.
Dependendo das articulações que ainda estão por vir, especialmente entre os partidos de centro e centro-direita, é possível que os três acabem desistindo da candidatura e optem por concorrer ao Congresso, onde, segundo as pesquisas, também seriam eleitos com alguma tranquilidade. Se na corrida pelo Palácio do Planalto atingem pouco mais de 3% dos votos nos levantamentos mais recentes, nas simulações para senador largam de patamares acima dos 20 pontos percentuais.
Exceções curiosas e desafios políticos
Há duas curiosas exceções nesse rol de governadores em fim de mandato. Mantendo a tendência dos outros estados, o governador do Maranhão, Carlos Brandão (sem partido), também lidera as pesquisas de intenção de voto para o Senado. Ele, porém, se diz propenso a não disputar a próxima eleição, pois não quer entregar a poderosa máquina administrativa ao seu vice, de quem se tornou adversário.
Em Rondônia, situação parecida levou o governador Marcos Rocha (União Brasil) a anunciar a desistência de concorrer ao Senado. Favorito, ele explicou: "É muito difícil entregar o governo nas mãos de alguém que me traiu". Esses casos destacam os dilemas internos que podem afetar a estratégia eleitoral.
Falta de propostas para mitigar vantagens
Apesar das reclamações sobre o desequilíbrio eleitoral, são raras as propostas para mitigar a vantagem dos governadores. "A lei precisa estabelecer algum mecanismo para reduzir esse desequilíbrio", ressalta Maria do Socorro Braga, professora de ciências políticas da UFSCar. O problema é que os prejudicados de hoje sabem que podem ser os beneficiados de amanhã, criando um ciclo de manutenção do status quo.
Com a polarização acirrada em nível nacional e duas vagas em disputa por estado, a tendência aponta para uma bancada robusta de ex-governadores no Senado, reforçando a força estrutural e histórica desses líderes na política brasileira.