Vitória atinge marco histórico: 600 dias sem registros de feminicídio
Em um cenário nacional alarmante, onde os números de feminicídios bateram recorde no último ano – com uma média de quatro mulheres mortas por dia em 2025, conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública –, a cidade de Vitória emerge como um exemplo positivo. A capital capixaba completou, nesta quinta-feira (29), impressionantes 600 dias sem nenhum caso registrado desse crime hediondo.
O último caso e a condenação
O último episódio de morte violenta de mulher na cidade ocorreu em 8 de junho de 2024, quando Sebastião Carlos da Silva assassinou sua própria filha, Brenda Luz da Silva, de 30 anos, com golpes de canivete. O agressor foi condenado a 11 anos e seis meses de prisão, em um caso que chocou a comunidade local.
Estratégias integradas de proteção
De acordo com a Prefeitura de Vitória, essa realidade favorável é fruto de um trabalho contínuo e coordenado entre o município, o Poder Judiciário e as forças de segurança. Um dos pilares dessa abordagem é o uso estratégico de tecnologia voltada especificamente para a proteção das mulheres.
O Botão Maria da Penha: tecnologia a serviço da vida
Uma ferramenta crucial nesse contexto é o Botão Maria da Penha. Disponível desde 2016, o dispositivo é oferecido a mulheres que possuem medida protetiva e são classificadas com alto risco de vida. Atualmente, 33 mulheres em Vitória utilizam o equipamento.
Quando acionado, o botão envia a localização da usuária em tempo real para a Guarda Municipal, dispara um alarme na Central de Monitoramento e emite um alerta imediato para as equipes em campo, tornando a ocorrência uma prioridade máxima.
Capacitação e resposta rápida
A comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, destaca que o tempo de resposta ao acionamento do botão é extremamente curto, graças à preparação constante dos agentes. "A Guarda Municipal passa por uma requalificação anual. Todo nosso efetivo está capacitado para atender a ocorrência sem revitimizar a mulher", afirmou.
Barbosa citou um caso emblemático em que a tecnologia foi decisiva: uma mulher portadora do botão denunciou a fuga de seu agressor, fornecendo a placa do veículo. Por meio das câmeras de monitoramento, foi possível rastrear o trajeto do homem, abordá-lo e efetuar a prisão.
Acompanhamento e patrulhas preventivas
Além da tecnologia, as mulheres que recebem o dispositivo são acompanhadas de perto pela Guarda Municipal. As equipes verificam sua rede de apoio, explicam detalhadamente o funcionamento do botão e realizam patrulhas regulares para garantir sua segurança.
Ações educativas também são realizadas em espaços públicos como praças, escolas e programas de Educação de Jovens e Adultos (EJA), com o objetivo de conscientizar a população e encorajar vítimas a buscarem ajuda.
Casa Rosa: acolhimento e ressignificação
Paralelamente às medidas de segurança, Vitória investe em ações de prevenção e acolhimento. A Casa Rosa, centro especializado da Secretaria Municipal de Saúde, realiza cerca de 400 atendimentos mensais a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade.
Conforme explicou a subsecretária de atenção à saúde, Patrícia Vêdova, o local oferece serviços de saúde por uma equipe multidisciplinar, incluindo médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais. "A Casa Rosa está aberta para acolher não apenas vítimas, mas também pessoas que percebem estar sofrendo algum trauma relacionado à violência", disse.
Além da proteção, o centro é referência em prevenção e assistência a infecções sexualmente transmissíveis (IST) e na profilaxia pós-exposição sexual (PEP). Após o tratamento, que inclui a ressignificação do trauma, as vítimas são direcionadas a outros serviços municipais para capacitação profissional ou retorno aos estudos.
O atendimento na Casa Rosa pode ser solicitado por demanda espontânea ou encaminhamento da rede pública, através de telefone, e-mail ou presencialmente na Ilha de Santa Maria.