Polícia Civil do Rio reúne famílias separadas há décadas com banco de dados
Polícia Civil do Rio reúne famílias após décadas separadas

Reencontros emocionantes: Polícia Civil do Rio reconecta famílias após décadas de separação

Uma iniciativa pioneira da Polícia Civil do Rio de Janeiro está transformando vidas ao possibilitar reencontros familiares que pareciam perdidos para sempre. Histórias de separações que duraram décadas estão sendo reescritas graças a um trabalho especializado que combina tecnologia, perseverança e sensibilidade humana.

Quarenta anos de espera por um abraço

Valesca da Silva viveu quatro décadas acreditando ter sido rejeitada pela mãe biológica. Aos seis meses de vida, foi levada de casa pelo pai, iniciando uma jornada de incertezas que só terminaria recentemente. "Saber que não fui rejeitada me trouxe muita paz ao coração!", emociona-se Valesca ao descobrir que sua mãe, Genilda Porfirio Cortês, nunca deixou de procurá-la.

"Não tinha uma noite que eu não lembrasse dela", confessa Genilda, que manteve viva a esperança do reencontro durante todos esses anos. O elo entre mãe e filha foi restabelecido quando Marcus Silva, irmão de Valesca, descobriu nas redes sociais uma ação policial voltada para localizar pessoas desaparecidas.

O poder do Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidos

Desde 2019, o Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas reúne informações cruciais para esses reencontros:

  • Fotografias atualizadas e antigas
  • Certidões de nascimento e outros documentos
  • Dados genéticos em casos específicos
  • Registros de buscas anteriores

Com o avanço desse banco de dados, a Polícia Civil fluminense criou recentemente um núcleo especializado para atender casos recorrentes de famílias separadas por circunstâncias diversas. Delegada Elen Souto explica a importância da iniciativa: "A ideia é o Rio de Janeiro ser pioneiro para que todos normatizem e as polícias também prestem esses serviços, porque é uma realidade do país".

A delegada destaca ainda que o Brasil, "um país de proporções continentais, com grande fluxo migratório", enfrenta desafios particulares nessa área. "Não é o desaparecimento propriamente dito, mas está atrelado ao desaparecimento. Então as polícias também prestam esse serviço de restabelecimento de vínculos", completa Souto.

Irmãos separados pela vida, reunidos pela esperança

Outra história comovente envolve cinco irmãos de uma família originalmente com doze filhos. Após a morte da mãe em uma área rural do Rio de Janeiro, as crianças foram colocadas para adoção pelo pai, dispersando-se em destinos diferentes.

Cypriano de Lima relembra com tristeza: "Minha mãe morreu, daí pra lá nós... foi cada um pra um canto". Laurentina de Abreu compartilha suas preces durante a infância: "Eu fui parar no colégio de freira, e pedia muito a Deus pra um dia encontrar todo mundo. Era o que eu pedia".

Para Antônio Lima, que nem lembrava dos rostos dos irmãos, a descoberta foi surpreendente: "Acho que era uma delegada, não sei quem foi que me entrevistou, pegou minha documentação que eu levei, eu levei tudo junto. Aí na mesma hora que ela bateu o nome da minha mãe, aí na tela já apareceu cinco irmãos".

Maurício: 72 anos esperando por uma família

O caso de Maurício, de 72 anos, exemplifica como essas separações marcaram gerações. Entregue a um orfanato ainda criança, ele relata uma vida de dificuldades: "Mais ou menos com uns 7, 8 anos, eu saí do orfanato, não tinha casa pra morar na época e eu também fiquei na rua também, sem comida, sem comer nada".

Hoje, Maurício experimenta pela primeira vez o calor do aconchego familiar. Durante o reencontro, os irmãos comparam origens com emoção: "Cadê o nome do pai e da mãe? Reginaldo e Iracema!" "É, nossa mãe e nosso pai. Precisa nem DNA, precisa não!"

Paradoxos da proximidade física

Um aspecto curioso dessas histórias é que muitas famílias viviam geograficamente próximas sem saber. Valesca e Genilda moram a apenas algumas horas de distância uma da outra. Os cinco irmãos reencontrados sempre viveram na mesma cidade, mas destinos paralelos que nunca se cruzaram.

"Faltava apenas alguém cruzar as informações certas para mudar de vez um destino que parecia perdido", reflete-se sobre o trabalho policial. Valesca resume o sentimento de muitos: "Gente, Deus foi muito generoso comigo, né? Gente, do nada a família cresceu muito, né?"

Genilda, por sua vez, valoriza cada momento reconquistado: "Eu tô aproveitando cada momento com ela e pedindo a Deus que me dê saúde e vida longa pra ter ela mais tempo perto de mim..."

A iniciativa da Polícia Civil do Rio de Janeiro demonstra como a combinação de tecnologia, organização de dados e sensibilidade humana pode reescrever histórias familiares que pareciam ter finais tristes. Cada reencontro representa não apenas a correção de um destino, mas a restauração de identidades e a cura de feridas emocionais que atravessaram gerações.