Julia Oliveira: A trajetória de resiliência de uma mulher trans no interior de SP
Mulher trans de Presidente Prudente supera desafios e luta por visibilidade

Julia Oliveira: A trajetória de resiliência de uma mulher trans no interior de SP

Nesta quarta-feira (29), celebra-se o Dia Nacional da Visibilidade Trans, uma data crucial para refletir sobre os desafios enfrentados por essa comunidade no Brasil. O país ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos de pessoas transexuais e travestis, com 80 casos registrados em 2025, segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Diante dessa realidade dura, histórias como a de Julia Oliveira, de 29 anos, moradora de Presidente Prudente (SP), destacam a resiliência e a luta diária por visibilidade, respeito e inclusão.

Da infância à descoberta da identidade

Nascida em Regente Feijó e criada em Presidente Prudente, Julia relata que, desde a infância, sentia algo "fora do lugar", mas só conseguiu nomear essa sensação anos depois. Aos 18 anos, identificou-se como homossexual; aos 23, ingressou no universo da arte drag; e, aos 26, passou a se reconhecer como mulher trans. A drag foi seu primeiro contato concreto com a expressão feminina, como ela mesma descreve: "Foi meu contato com a arte e a persona feminina". Julia muitas vezes se apresenta como travesti, uma escolha política para ressignificar um termo historicamente ofensivo e honrar a resistência de gerações passadas.

O processo de transição foi complexo, mesmo com o acolhimento da mãe. Amigos e familiares precisaram reaprender a se relacionar com ela em um novo corpo, como Julia explica: "Tiveram que aprender a conviver com a mesma essência em uma pessoa diferente". Em 2008, iniciou o tratamento hormonal, marcando o início oficial de sua jornada.

Desafios no mercado de trabalho e episódios de transfobia

Graduada em turismo, Julia enfrentou barreiras significativas no mercado de trabalho, atuando como autônoma em áreas como telemarketing, salões de beleza e restaurantes. Em uma experiência em Santa Catarina, viveu um episódio de transfobia quando um patrão exibiu um vídeo de sua performance drag para constrangê-la durante um jantar de funcionários. Ela relembra: "A intenção era me envergonhar, mas eu comecei a falar do vídeo com empolgação e o desconforto acabou sendo dele".

Apesar disso, o ambiente hostil teve impactos profundos, incluindo desrespeito ao nome social e dificuldades no uso de banheiros, levando-a a adoecer emocionalmente. Em um momento de desespero, chegou a cogitar interromper o tratamento hormonal para facilitar a empregabilidade, mas descartou a ideia ao perceber que não podia negar sua identidade.

A luta por emprego formal e a arte drag como refúgio

Julia enfatiza que o acesso ao emprego formal é decisivo para garantir direitos básicos como moradia e saúde, além de romper o estigma que associa travestis e mulheres trans à prostituição. Dados de 2023 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que apenas 25% das pessoas trans no Brasil têm emprego formal, realidade que empurra muitas para a informalidade. Atualmente, trabalhando no comércio em Presidente Prudente, Julia ainda percebe olhares e comentários velados, mas reconhece a importância de ocupar esses espaços.

Paralelamente, a arte drag segue central em sua vida. Sob o nome artístico Olivia Baker, uma homenagem à avó materna, ela se apresenta há mais de duas décadas. No interior, os espaços para performances são escassos, concentrando-se em eventos como a Parada LGBTQIA+ local. Julia define a drag como um território de liberdade e reconstrução.

Superação de adversidades e projetos futuros

Em 2024, Julia enfrentou outro desafio: foi atacada por uma cachorra, precisando de cerca de 50 pontos no rosto. Além da dor física, lidou com impactos psicológicos e comentários ofensivos. Uma vaquinha online ajudou no tratamento, evidenciando a força de sua rede de apoio.

Recentemente, participou de um curso de recursos humanos no Senac, onde desenvolveu um projeto sobre empregabilidade trans, reacendendo o desejo de atuar como educadora no futuro. Ela afirma: "Ver que há instituições que acolhem e dão oportunidade é importante. Dão fôlego para a gente". Para quem busca oportunidades, plataformas como o TransEmpregos conectam candidatos a vagas inclusivas em todo o Brasil.

A história de Julia Oliveira é um testemunho de coragem e persistência, refletindo a luta contínua da comunidade trans por igualdade e dignidade em um país marcado pela violência e exclusão.