Mercado de trabalho 60+: desafios e oportunidades para idosos no Brasil
Aos 79 anos, Paulo Cizotto acumula décadas de experiência profissional em contabilidade, vendas e como recenseador do IBGE. Após um período de inatividade, há cerca de cinco meses, ele decidiu retornar ao mercado de trabalho, não apenas para evitar o ócio, mas também para complementar a renda familiar. Atualmente, atua como operador de caixa em uma grande rede de supermercados em Ribeirão Preto, interior de São Paulo.
"Hoje em dia já estou mais solto, já estou conseguindo executar tarefas com mais tranquilidade", relata Paulo, que se adaptou rapidamente às novas funções. Sua história reflete um movimento crescente no Brasil: a presença cada vez mais significativa de pessoas acima dos 60 anos no mercado de trabalho.
Crescimento recorde da população idosa ocupada
Segundo dados do IBGE referentes a 2024, mais de 8,3 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais estão ocupados, representando uma taxa recorde de 24,4% para essa faixa etária. Isso significa que aproximadamente uma em cada quatro pessoas idosas no país está trabalhando. Especialistas em recursos humanos destacam que esse fenômeno não é uma tendência passageira, mas uma realidade irreversível, impulsionada pelo envelhecimento populacional.
Rodrigo Fonseca, consultor em recursos humanos, explica: "Essa é uma transformação, eu diria, fisiológica mesmo. Uma transformação da capacidade do indivíduo de postergar a degradação do corpo. O pessoal brinca que os 50 são os novos 40. Talvez os 65 sejam os novos 50".
Fatores que impulsionam a participação dos idosos
Em São Paulo, dados da Fundação Seade de 2023 mostram que mais de 2,1 milhões de pessoas acima de 60 anos estavam ocupadas, um aumento de 55% em relação a 2014. Entre os principais fatores para essa maior presença estão:
- Aumento da longevidade e qualidade de vida
- Prolongamento da vida economicamente ativa
- Necessidade de subsistência ou complementação da renda familiar
Além disso, o envelhecimento populacional indica uma futura redução na disponibilidade de mão de obra jovem, o que pode abrir mais espaços para profissionais experientes. Projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS) sugerem que a população brasileira com mais de 60 anos saltará de 33 milhões para mais de 63 milhões até 2050.
Paciência e experiência como vantagens competitivas
Dados do IBGE revelam que 43% dos idosos ocupados atuam por conta própria, enquanto 17% têm carteira assinada. Em setores como atendimento ao cliente, a paciência e a bagagem profissional dos mais velhos se destacam como qualidades valiosas.
"Essa é uma habilidade especial dos mais velhos: ter uma paciência maior para lidar com o público. Na telefonia celular, o pessoal liga sempre reclamando, e a paciência de escutar e ser empático é algo que o idoso faz melhor", afirma Fonseca.
Marly Fernandes, de 66 anos, é um exemplo disso. Após quase quatro anos como operadora de teleserviços na Paschoalloto Serviços Financeiros, ela foi recentemente promovida para o setor de atendimento ao cliente, após atuar em cobranças. "Para cobrar, você tem que gostar de trabalhar com o público", comenta ela, destacando a necessidade de saber lidar com diferentes perfis de clientes.
Programas de contratação e diversidade geracional
Empresas têm implementado iniciativas para aproveitar o potencial dos profissionais mais velhos. A rede de supermercados Savegnago, por exemplo, elevou a participação de funcionários acima de 50 anos de 10% para quase 20% em suas lojas espalhadas por 22 cidades do interior paulista.
Jaciani Rizziolli, diretora de recursos humanos da empresa, relata: "A gente lançou um desafio em que abrimos 500 vagas, mas contratamos mais de 1,5 mil pessoas desde o início do programa". Ela destaca que esses profissionais trazem maturidade, resiliência e habilidade para resolver problemas, especialmente em funções que envolvem contato direto com o público.
Combate ao preconceito e aprendizado intergeracional
A convivência entre gerações no ambiente de trabalho tem se mostrado produtiva. Paulo Cizotto, que brinca ao dizer que tem duas filhas que poderiam ser mães de suas colegas mais jovens, valoriza essa interação. "Até quando a força estiver ajudando, a gente vai", afirma, referindo-se à jornada cansativa, mas recompensadora.
Jaciani Rizziolli observa que a experiência com profissionais mais velhos ajuda a derrubar estereótipos, como a ideia de que eles não conseguem lidar com tecnologia. "Cada indivíduo é um indivíduo. Conheço pessoas de 60 anos com mais domínio em tecnologia do que algumas de 30", ressalta.
Luiz Polaco, gerente de 64 anos com mais de quatro décadas na mesma empresa, enfatiza a importância da adaptação: "O maior desafio hoje é acompanhar a juventude. Ter aquela experiência que a gente tem do fazer e associar com os mais novos. Essa é a grande sacada".
Essas histórias ilustram uma transformação profunda no mercado de trabalho brasileiro, onde a experiência dos idosos se torna um ativo cada vez mais valorizado, desafiando preconceitos e promovendo uma força de trabalho mais diversa e inclusiva.