Vale retoma liderança global em minério de ferro após tragédias e profunda reestruturação
Vale volta ao topo da mineração mundial após reestruturação pós-tragédias

A retomada da Vale: como a mineradora brasileira superou tragédias e voltou ao topo mundial

Após enfrentar duas das maiores tragédias ambientais e humanitárias da história do Brasil, a Vale não apenas sobreviveu, mas se transformou profundamente. Dez anos após o rompimento da barragem em Mariana e sete anos depois do desastre em Brumadinho, a companhia mineira se aproxima de um marco histórico: retomar a liderança global na produção de minério de ferro.

Do ápice à crise: o caminho da transformação

Antes das tragédias, a Vale vivia seu período de maior expansão, sustentada por investimentos pesados e pela demanda chinesa que transformara o minério brasileiro em insumo estratégico para a indústria do aço mundial. A empresa não era apenas uma mineradora, mas uma âncora da balança comercial brasileira e uma das raras multinacionais criadas no país com protagonismo na economia global.

Esse ciclo de crescimento, porém, escondia riscos que viriam à tona de forma trágica. As rupturas das barragens em Mariana e Brumadinho não apenas causaram perdas humanas devastadoras e impactos socioambientais profundos, mas colocaram em xeque toda a estrutura operacional e de governança da empresa.

A reconstrução: três linhas de defesa e nova governança

A virada da Vale começou na rotina de produção. A empresa implementou um modelo de três linhas de defesa, onde governança, padrões técnicos e gestão de riscos deixaram de ser suporte da operação para se tornar parte integrante do sistema produtivo. "Depois de Brumadinho, a Vale passou a operar com um modelo completamente diferente", explica Carlos Medeiros, vice-presidente executivo de operações da empresa.

Internamente, a estrutura de decisões foi completamente redesenhada:

  • Áreas como segurança, saúde e integridade passaram a responder diretamente à alta cúpula
  • Comitês executivos reforçaram a supervisão de processos críticos
  • Adoção do Padrão Global da Indústria para a Gestão de Rejeitos
  • Criação de centros de monitoramento geotécnico em tempo real
  • Uso intensivo de dados para antecipar falhas potenciais

O custo da transformação e a retomada da produção

A reconstrução veio acompanhada de um custo financeiro elevadíssimo. Desde Mariana, e especialmente após Brumadinho, a Vale direcionou parcela significativa do caixa para:

  1. Indenizações às famílias afetadas
  2. Acordos judiciais com governos e comunidades
  3. Reparações ambientais em larga escala

O acordo com o governo de Minas Gerais pelos danos de Brumadinho prevê desembolsos de 37,7 bilhões de reais, enquanto o novo pacto de reparação de Mariana, concluído em 2024, estabelece compromissos que podem chegar a 170 bilhões de reais.

Apesar desses custos monumentais, a empresa conseguiu retomar a produção com mais regularidade. Carajás, no Pará, e Itabira, em Minas Gerais, voltaram a operar com estabilidade, enquanto o projeto S11D se firmou como pilar do minério de alto teor. A companhia projeta ter produzido 335 milhões de toneladas em 2025, volume suficiente para recolocá-la à frente da anglo-australiana Rio Tinto, atual líder do setor.

Tecnologia e automação: a nova forma de operar

A Vale construiu uma nova forma de operar baseada em tecnologia avançada. A empresa opera atualmente 32 caminhões autônomos e planeja chegar a 150 em dois anos. Monitoramento em tempo real, processos padronizados e integração entre mina e ferrovia se tornaram condições básicas para manter a produção sob controle.

"A companhia construiu uma nova forma de operar, baseada em tecnologia, padronização e gestão de riscos desde o desenho dos projetos", afirma Rafael Bittar, vice-presidente executivo da Vale. "Hoje, a decisão de produzir passa por critérios muito mais rigorosos, com foco em segurança, eficiência e sustentabilidade no longo prazo."

Nova estratégia: além do minério de ferro

Com a operação mais estável, a Vale ganhou espaço para ajustar sua estratégia de longo prazo. Embora o minério de ferro continue sendo a principal fonte de receita, a empresa passou a mirar também metais da transição energética, como cobre e níquel, usados em redes de energia, veículos elétricos e eletrificação em geral.

Esses projetos foram reunidos na Vale Base Metals, criada para dar escala, atrair parceiros e impor mais disciplina de capital e de custos à expansão. A ideia é reduzir a dependência do ciclo do minério de ferro e se expor a mercados de crescimento de longo prazo.

O legado das tragédias e o futuro da empresa

Para Gustavo Pimenta, presidente da Vale, as tragédias não são uma página virada, mas sim "um elemento permanente de aprendizado e transformação". A empresa passou a ser cobrada no Brasil e internacionalmente por padrões mais exigentes de segurança, governança e responsabilidade socioambiental.

O professor Giorgio de Tomi, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, analisa: "Nos grandes acidentes, o problema não foi técnico, mas institucional. A resposta a essas falhas desencadeou uma transformação profunda: hoje os processos são muito mais controlados, com padrões elevados e alinhamento às melhores práticas internacionais."

A retomada da liderança global na produção de minério de ferro representa mais do que um feito operacional para a Vale. É o ponto mais visível de uma travessia que começou em 2015 e se aprofundou em 2019, quando a empresa deixou de ser vista apenas como potência global para se tornar um caso emblemático de falhas sistêmicas e, posteriormente, de transformação corporativa.

O passado não será apagado — as perdas humanas e os impactos socioambientais foram devastadores e não podem ser relativizados. Mas o que a Vale faz a partir dessa experiência dolorosa ajuda a mostrar como grandes organizações podem, e devem, evoluir diante de seus erros, redefinindo não apenas sua posição no mercado, mas sua própria razão de existir no mundo contemporâneo.