Maílson da Nóbrega analisa caminhos para Brasil se tornar país rico em obra recém-lançada
Em seu mais recente livro, intitulado O Brasil Ainda Pode Ser um País Rico?, o renomado economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega mergulha em uma análise profunda dos desafios e oportunidades que o país enfrenta para superar a chamada armadilha da renda média. A obra, que chega às livrarias no início de fevereiro e já está disponível em pré-venda online, oferece um olhar crítico sobre a história econômica brasileira, prevendo uma crise fiscal iminente, mas também destacando a possibilidade de reformas estruturais que poderiam pavimentar o caminho para o tão almejado enriquecimento nacional.
Reparos nos alicerces econômicos como prioridade máxima
Segundo Maílson da Nóbrega, reparar os alicerces da economia, com especial atenção ao quadro fiscal do governo, deveria ocupar o topo das prioridades para que o Brasil possa, finalmente, ingressar no clube das nações ricas. O ex-ministro, que esteve à frente da pasta de 1988 a 1990 e hoje, aos 83 anos, é um dos principais analistas econômicos do país, argumenta que a construção de um país é resultado das escolhas de seus líderes e cidadãos, organizados em instituições funcionais. Ele enfatiza que a trajetória de desenvolvimento não está escrita em pedra, sempre havendo espaço para ajustes de rota e enfrentamento de mazelas antes consideradas incontornáveis.
Ao longo da história recente, o Brasil perdeu sucessivas oportunidades para enriquecer, enfrentando fatores como:
- Baixa taxa de poupança
- Insegurança jurídica
- Juros elevados
- Protecionismo excessivo
No entanto, Maílson também reconhece conquistas importantes, como a consolidação de um Banco Central técnico e autônomo, um sistema financeiro sólido, um agronegócio protagonista e indústrias extrativas competitivas.
Análise histórica e perspectivas futuras
Para compreender o impacto econômico de eventos marcantes, como o Plano Real, as vitórias eleitorais de Luiz Inácio Lula da Silva, a recessão durante o governo de Dilma Rousseff e as reformas promovidas por Michel Temer, Maílson recorre a uma análise histórica abrangente. Ele examina desde a criação de instituições liberais após a Revolução Gloriosa de 1688 na Inglaterra até as reformas implementadas por Deng Xiaoping na China do século XX, oferecendo uma explanação erudita que ajuda a colocar a realidade brasileira em perspectiva.
O autor destaca que a história econômica mundial mostra uma clara trajetória de progresso, impulsionada pela garantia de direitos essenciais ao capitalismo, como propriedade privada e cumprimento de contratos, além das revoluções tecnológicas que aumentaram a produtividade. Contudo, para o Brasil, o médio prazo aponta na direção contrária do enriquecimento. Maílson alerta que a dinâmica político-econômica iniciada em 1988 pode levar a uma crise fiscal inédita nos próximos anos, caracterizada por um arrocho puramente fiscal, onde o governo poderá não ter recursos para despesas básicas devido ao orçamento comprimido por gastos obrigatórios.
Crise como oportunidade para reformas
Em sua análise, Maílson da Nóbrega aponta para os dois lados do possível colapso das contas públicas: por um lado, ele pode desaguar em uma crise financeira de graves repercussões para a economia brasileira, mas, por outro, tende a criar o ambiente para um promissor ciclo de reformas estruturais. O economista observa que o Brasil costuma aprender com a dor, citando o exemplo do Plano Real, quando a sociedade, incapaz de suportar mais a inflação, encontrou uma solução. Assim, ele acredita que o país depende de lideranças para capitalizar a crise e enfrentar suas fragilidades de frente.
Apesar das previsões negativas no médio prazo, Maílson deposita esperança na capacidade do Brasil de aprender com seus erros. Ele afirma que a economia brasileira está doente, com fundamentos básicos para o desenvolvimento em crise, incluindo regime fiscal, endividamento e produtividade. Esses problemas urgentes motivaram o lançamento do livro em um ano em que o futuro do país está em foco, embora ele não acredite que o ajuste fiscal será um tema central nas campanhas eleitorais, por considerar que candidatos que defendam medidas impopulares, como o fim de vinculações da saúde e educação ou uma nova reforma da Previdência, tenderiam a perder a eleição.
Debates sobre acordos comerciais e tecnologia
Em entrevistas relacionadas ao livro, Maílson também aborda outros temas relevantes. Sobre o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, assinado recentemente, ele o descreve como o mais importante acordo de comércio da história mundial, representando um passo gigantesco para o enriquecimento do Brasil ao ajudar a superar o desafio do aumento de produtividade. Quanto ao Judiciário, ele critica a falta de preparo dos juízes para entender o impacto de suas decisões na economia, mas expressa satisfação com a introdução da disciplina de análise econômica do direito em faculdades.
Além disso, Maílson comenta a solidez do sistema financeiro brasileiro, exemplificada pelo caso do Banco Master, que, apesar do barulho, não gerou danos relevantes ao sistema. Sobre inteligência artificial, ele a vê como uma tecnologia transformadora que pode enriquecer a sociedade, enfatizando que cada país, incluindo o Brasil, deve aproveitar as oportunidades criadas pela IA para não ficar para trás.
Com 373 páginas e preço de R$ 99 na versão física e R$ 69 em e-book, o livro O Brasil Ainda Pode Ser um País Rico? oferece uma reflexão crucial em um momento decisivo para a economia nacional, misturando pessimismo realista com um otimismo cauteloso sobre a capacidade do país de superar seus obstáculos históricos.