Empresa sul-coreana pede falência no Brasil com saldo ínfimo e dívida bilionária
A Posco Engenharia e Construção do Brasil, uma filial da gigante sul-coreana Posco Eco & Challenge, declarou autofalência em agosto de 2025, desencadeando uma crise financeira com dívidas que ultrapassam R$ 644 milhões. Em um cenário alarmante, a empresa informou possuir um saldo bancário de apenas R$ 109, levantando suspeitas de fraude e calote por parte de credores que buscam recursos na Justiça.
Contexto histórico e acusações de fraude
Criada em 2011 para atuar na construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) no Ceará, um projeto de US$ 5,4 bilhões que durou de 2013 a 2018, a Posco Brasil enfrenta agora uma série de ações judiciais. Muitas empresas contratadas alegam não ter recebido pelos serviços prestados, o que levou à formação da Associação Internacional de Credores da Posco. Esta entidade entrou na Justiça para barrar o pedido de falência, argumentando que se trata de uma manobra fraudulenta planejada para evitar o pagamento das dívidas.
Conforme documentos acessados, a Posco Brasil listou 47 credores, incluindo ex-funcionários, pequenas e grandes empresas, além de órgãos públicos como a Fazenda Nacional, o INSS e a Receita Federal. O pedido de falência foi aceito pela 3ª Vara Empresarial de Recuperação de Empresas e de Falências da Comarca de Fortaleza em setembro de 2025, com um edital de liquidação publicado em novembro do mesmo ano.
Patrimônio insuficiente e consequências para credores
No processo, a empresa afirmou ter ativos disponíveis de cerca de R$ 11 mil, com patrimônio consistindo em um Ford Fusion 2015 avaliado em R$ 70 mil e um terreno em São Gonçalo do Amarante, comprado por R$ 1,6 milhão. Com um saldo corrente de R$ 109 e aplicações financeiras de R$ 4.798, a Posco Brasil alega incapacidade financeira para quitar os débitos.
Se a tese for mantida, os bens seriam vendidos para saldar parte da dívida de R$ 644 milhões, com a quantia arrecadada distribuída conforme prioridades legais. A maioria dos credores, no entanto, não receberia nada, exacerbando as acusações de calote. A Associação Internacional de Credores busca responsabilizar a matriz sul-coreana, estendendo a dívida para além das fronteiras brasileiras.
Detalhes das dívidas e inconsistências no processo
As dívidas da Posco Brasil são divididas em várias categorias: dívidas trabalhistas de R$ 573 milhões, dívidas tributárias de R$ 33 milhões (corrigidas posteriormente para R$ 42 milhões pela União), dívidas quirografárias de R$ 10,4 milhões e dívidas intercompany de R$ 26,6 milhões. Destaca-se que R$ 567 milhões das dívidas trabalhistas são devidos a um único credor, o escritório de advocacia Campelo Costa, localizado em Fortaleza.
Inconsistências no processo incluem a omissão de débitos, como os R$ 22 milhões devidos à empresa Maqloc por aluguéis de equipamentos. Credores argumentam que a falência foi planejada para desviar lucros para a matriz na Coreia do Sul, deixando o Brasil sem pagar as obrigações. Em outubro de 2025, uma decisão liminar estendeu a responsabilidade para a Posco Holdings, controladora global, mas o processo de falência segue em tramitação.
Impacto econômico e perspectivas futuras
A empresa alegou prejuízos devido a fatores como aumento de custos, atrasos no projeto, recessão econômica e pandemia de Covid-19. Com nenhuma obra executada desde 2018 e sede em um escritório de coworking em Fortaleza, a Posco Brasil afirma não ter perspectivas de novos contratos. O caso, que permanece na primeira instância apesar de recursos, ilustra os desafios de empresas estrangeiras no mercado brasileiro e as complexidades legais em processos de falência.
Enquanto isso, credores continuam a lutar na Justiça para garantir seus direitos, em um embate que pode definir precedentes para responsabilização de matrizes internacionais por dívidas de filiais locais.