Banco Central sinaliza corte de juros para março e analistas projetam reduções modestas
BC sinaliza corte de juros em março e analistas fazem projeções

Banco Central sinaliza corte de juros para março e analistas projetam reduções modestas

O Banco Central brasileiro manteve a taxa básica de juros, a Selic, em 15% ao ano durante a reunião do Comitê de Política Monetária realizada nesta quarta-feira, 28 de janeiro de 2026. Contudo, o que chamou a atenção do mercado financeiro foi a clara sinalização de que um ciclo de flexibilização monetária pode ter início já na próxima reunião do Copom, programada para março.

Mudança de tom na comunicação do BC

Em comunicado oficial, o Banco Central afirmou que "antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião". Esta declaração representa uma mudança significativa no tom utilizado anteriormente pela autoridade monetária, que costumava enfatizar a necessidade de manter uma política contracionista por período prolongado.

José Marcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos, destacou que "a sinalização clara do BC superou as expectativas iniciais do mercado". Segundo ele, muitos analistas não esperavam que o Banco Central fosse tão explícito em relação ao início dos cortes de juros.

Inflação em rota de convergência justifica mudança

A avaliação que possibilitou esta alteração na comunicação do Copom baseia-se na percepção de que as medidas adotadas até o momento colocaram a inflação brasileira em trajetória de convergência com a meta estabelecida de 3% ao ano. Raphael Vieira, co-diretor de investimentos da Arton Advisors, explica que "o Banco Central reconhece a desaceleração da atividade econômica e o arrefecimento gradual dos índices inflacionários".

Entretanto, o economista faz uma importante ponderação: "A autoridade monetária segue incomodada com a desancoragem das expectativas e com a resiliência da inflação de serviços, especialmente em um mercado de trabalho ainda bastante aquecido".

Variáveis que mantêm cautela no Copom

Diversos fatores continuam a exigir prudência por parte do Comitê de Política Monetária. Entre eles destacam-se o mercado de trabalho brasileiro que permanece aquecido, a persistência da inflação de serviços e as incertezas tanto na economia nacional quanto no cenário internacional.

O próprio comunicado do Banco Central foi transparente ao afirmar que qualquer ciclo de cortes de juros "dependerá da evolução de fatores que permitam maior confiança no atingimento da meta para a inflação no horizonte relevante". Esta declaração reforça o caráter condicional da sinalização de flexibilização monetária.

Expectativas desancoradas limitam margem de manobra

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, aponta que "a desancoragem das expectativas no mercado financeiro impede que o Banco Central tome decisões mais arrojadas em relação à queda dos juros". Segundo ele, apesar dos avanços recentes no controle inflacionário, ainda não existe espaço para uma flexibilização prematura da política monetária.

Raphael Vieira complementa esta análise: "O Copom tenta equilibrar duas forças contraditórias: de um lado, existe espaço técnico para começar a cortar juros; de outro, falta confiança para acelerar esse movimento sem comprometer a credibilidade do regime de metas de inflação".

Projeções do mercado financeiro

O Boletim Focus divulgado na última segunda-feira, 26 de janeiro, já indicava que o mercado financeiro projeta a taxa Selic terminando o ano de 2026 em 12,25%, o que representaria uma redução de 2,75 pontos percentuais em relação ao patamar atual. Agora, os analistas concentram-se em estimar o tamanho mais provável para o primeiro corte, caso ele realmente ocorra em março.

Flávio Serrano, economista-chefe do Banco Bmg, afirma que "mantemos nossa visão de que o BC cortará a Selic em 0,50 ponto percentual na reunião de março". Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, também aposta em redução de 0,50 ponto percentual, mas ressalta que "existe uma incerteza considerável sobre este tema no mercado financeiro".

Cenários possíveis para o corte de março

A maioria dos analistas consultados projeta cortes entre 0,25 e 0,50 ponto percentual na próxima reunião do Copom. Contudo, Natalie Victal observa que "a possibilidade de um corte de 0,75 ponto percentual também passa a ganhar alguma probabilidade", especialmente devido à recente desvalorização do dólar e a indicadores econômicos brasileiros mais fracos.

Cortes superiores a 0,50 ponto percentual são tratados como possibilidades remotas pela maioria dos especialistas, que não enxergam espaço para reduções consideradas mais agressivas. José Marcio Camargo reforça esta visão: "O fato de as expectativas de inflação para 2026 e 2027 continuarem desancoradas reforça a necessidade de manter a política monetária em terreno contracionista por mais tempo".

Embora o corte de juros finalmente apareça no horizonte dos investidores, a taxa Selic deve permanecer em patamares elevados por período indeterminado, refletindo o equilíbrio delicado que o Banco Central busca entre estimular a economia e manter o controle inflacionário.