União Europeia e Índia selam pacto comercial histórico após duas décadas de negociações
Nesta terça-feira, 27 de janeiro de 2026, União Europeia e Índia fizeram história ao assinar um acordo comercial que estava em negociação há exatamente vinte anos. O pacto, celebrado em Nova Délhi, cria a maior zona de livre comércio do planeta, abrangendo uma população estimada em 2 bilhões de pessoas e representando cerca de 25% do PIB mundial.
Contexto geopolítico e objetivos estratégicos
O acordo surge em um momento de incerteza geopolítica global, com as partes explicitamente buscando proteção contra dois grandes desafios: a concorrência econômica chinesa e os efeitos da guerra tarifária iniciada pelos Estados Unidos durante a administração de Donald Trump. Segundo autoridades europeias e indianas, o pacto visa fortalecer as economias de ambos os lados através da redução significativa de barreiras comerciais e do acesso a novos mercados.
"Europa e Índia fizeram história hoje", declarou Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, através da rede social X (antigo Twitter). "Concluímos o acordo dos séculos. Criamos uma zona de livre comércio de 2 bilhões de pessoas que beneficiará as duas partes."
Detalhes do acordo e benefícios econômicos
O texto final, cujos últimos obstáculos foram superados na segunda-feira anterior à assinatura, prevê reduções drásticas de tarifas em diversos setores:
- Tarifas indianas sobre veículos europeus caem de 110% para 10%
- Impostos sobre vinhos reduzem de 150% para 20%
- Taxas sobre produtos como massa e chocolate são totalmente eliminadas (atualmente em 50%)
- Setor aeronáutico terá redução de 11% para zero
Segundo cálculos de Bruxelas, a redução das taxas indianas sobre importações europeias deve permitir ao bloco economizar aproximadamente 4 bilhões de euros anuais (cerca de R$ 25,1 bilhões). A União Europeia espera ser beneficiada pelo maior nível de acesso já concedido por Nova Délhi a um parceiro comercial.
Impacto setorial e exceções negociadas
Setores europeus considerados cruciais terão vantagens significativas:
- Agricultura: produtos emblemáticos como vinho, azeite e alimentos processados
- Automóveis: especialmente beneficiando a indústria alemã
- Serviços: ampliação das trocas comerciais
Contudo, o acordo excluiu produtos agrícolas sensíveis como carne bovina, arroz e açúcar - itens que causaram controvérsia em recente pacto com o Mercosul e provocaram protestos de agricultores europeus.
Perspectivas indianas e complementaridade econômica
Do lado indiano, o primeiro-ministro Narendra Modi celebrou as "muitas oportunidades" trazidas pelo acordo. A Índia espera fortalecer exportações de:
- Têxteis
- Joias e pedras preciosas
- Produtos de couro
Como contrapartida, a União Europeia concederá a Nova Délhi uma cota anual de 1,6 milhão de toneladas de aço que poderá ser exportada para países membros sem tarifas.
Panorama comercial atual e projeções futuras
O comércio entre os dois blocos já apresenta números expressivos:
- Mercadorias: 120 bilhões de euros em 2024 (crescimento de quase 90% na última década)
- Serviços: 60 bilhões de euros em trocas
Bruxelas observa com particular interesse o imenso mercado indiano, que conta com 1,5 bilhão de habitantes e registrou crescimento de 8,2% no último trimestre. Segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), a Índia deve superar o Japão ainda em 2026, tornando-se a quarta maior economia mundial, atrás apenas de Estados Unidos, China e Alemanha.
Acordos complementares em negociação
Além do pacto comercial, União Europeia e Índia planejam avançar em outras frentes de cooperação:
- Acordo sobre circulação de trabalhadores temporários
- Intercâmbio de estudantes, pesquisadores e profissionais qualificados
- Pacto de segurança e defesa conjunta
Para Nova Délhi, a Europa representa uma fonte indispensável de tecnologias e investimentos, elementos cruciais para acelerar a modernização do país e criar milhões de empregos. O acordo comercial histórico marca não apenas um marco nas relações bilaterais, mas também um reposicionamento estratégico no cenário econômico global.