Dólar perde hegemonia no sistema financeiro global apesar de ameaças de Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segue ameaçando com sanções os países que evitam utilizar o dólar como moeda de referência em negócios internacionais. Contudo, a realidade mostra que sua influência tem limites, especialmente diante dos 21 países da União Europeia que adotaram o euro como moeda comum.
Acordo Mercosul-UE e o impacto no dólar
O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, ainda pendente de aprovação no Parlamento Europeu devido a resistências de agricultores na França e Itália, tende a reduzir ainda mais o uso do dólar em transações financeiras e comerciais. Este movimento é parte de uma tendência global de diversificação monetária.
Aversão global ao dólar e migração para o ouro
Devido aos sustos causados pelo tarifaço e pelo intervencionismo americano no comércio internacional, que interrompeu fluxos das cadeias produtivas, houve uma natural aversão ao dólar. A moeda americana também se desvalorizou frente às principais moedas globais, com reflexos nas cotações de commodities.
Este cenário levou os principais bancos centrais do mundo a trocarem parte de suas reservas internacionais do dólar para o ouro, buscando maior segurança e estabilidade.
Queda histórica no sistema SWIFT
O efeito prático dessa mudança foi significativo. No ano passado, a participação do dólar nas transações financeiras da rede SWIFT, sediada na Bélgica, caiu para 46,7%, contra 50,2% em 2024. Este declínio marca o fim da hegemonia absoluta do dólar no sistema financeiro internacional.
O sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication) foi criado em 1973 em Bruxelas para permitir a troca de informações bancárias e transferências financeiras entre instituições financeiras globais. É controlado pelos bancos centrais de diversos países, incluindo Estados Unidos, Alemanha, França e Japão.
Contexto geopolítico e alternativas ao SWIFT
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, os países membros da OTAN responderam com sanções financeiras, incluindo o bloqueio de bancos russos no SWIFT. Como resposta, o Banco Central da Rússia desenvolveu o Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras (SPFS), uma alternativa ao SWIFT que tem funcionado e redirecionado fluxos comerciais para China e países fora da órbita da OTAN.
Desvalorização acentuada do dólar
Tomando como base a posse de Trump em 20 de janeiro de 2025, o dólar tem apresentado perdas significativas frente à maioria das moedas globais:
- Euro: avanço de 12,60% em um ano
- Libra esterlina: avanço de 9,05%
- Real brasileiro: valorização de 11,85%
- Franco suíço: dólar caiu 12,72%
- Peso mexicano: queda de 14,15%
- Dólar australiano: queda de 7,77%
- Yuan chinês: queda de 4,32%
O ouro, por sua vez, valorizou impressionantes 74,35% no mesmo período, refletindo a desconfiança crescente dos países em relação ao dólar. A desvalorização da moeda americana funciona como um serviço auxiliar do tarifaço, freando importações e estimulando exportações dos Estados Unidos.
Ganhos expressivos do dólar ocorreram apenas contra a lira turca (21,47%) e o peso argentino (36,31%), economias com problemas estruturais específicos. Enquanto isso, a prata chegou a ganhar mais de 200%, o barril de Brent desvalorizou 17,30% em dólar, e o Contrato C do Café na Bolsa de Mercadorias de Nova Iorque subiu apenas 0,79%, contrastando com a alta de 15,94% no preço do boi gordo negociado em Chicago.