O acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul, que após mais de vinte anos de negociações entrou recentemente em sua fase final de ajustes, deve gerar impactos econômicos modestos para ambos os blocos, mas carrega um peso político e simbólico considerável. A conclusão é de um relatório da consultoria internacional Oxford Economics, com sede no Reino Unido, divulgado na sexta-feira, 16 de janeiro de 2026.
Impacto Econômico Modesto nos Dois Lados do Atlântico
De acordo com as projeções, baseadas em estudos próprios e em avaliações encomendadas pelo Conselho Europeu, o PIB do Mercosul deve crescer apenas 0,3% ao longo do tempo graças ao pacto. Do lado europeu, o ganho é ainda mais tímido, com uma expansão estimada em apenas 0,1% no PIB da União Europeia.
A análise detalha que, dentro do Mercosul, os benefícios não serão uniformes. O Brasil deve ter um incremento de 0,3% em seu PIB, enquanto a Argentina pode ver um crescimento um pouco maior, de 0,4%. Em contraste, o Paraguai é projetado como o único país a sofrer uma leve perda, com uma redução de 0,1% em seu produto interno bruto em comparação com um cenário sem o acordo.
Para várias nações europeias, como França, Grécia e Irlanda, o impacto líquido sobre o crescimento econômico é considerado praticamente nulo.
O Simbolismo Estratégico por Trás dos Números
Apesar dos números modestos, a Oxford Economics ressalta que a importância principal do acordo transcende a esfera puramente econômica. O pacto serve como um sinal forte do comprometimento de ambos os blocos com um sistema de comércio baseado em regras e com a cooperação internacional, um contraponto valioso em um cenário global marcado por tensões protecionistas.
O relatório destaca que o setor agrícola do Mercosul, relevante para sua economia, é o que mais deve se beneficiar com um acesso ampliado ao mercado europeu. No entanto, alerta que os benefícios serão limitados por uma retirada gradual das tarifas, uma série de exceções negociadas e a manutenção de mecanismos de proteção europeus, como as cotas tarifárias para produtos agrícolas sensíveis.
Assimetria Comercial Explica Diferença de Ganhos
A razão para a diferença na magnitude dos ganhos entre os blocos está na assimetria da relação comercial. A União Europeia é um parceiro muito mais significativo para o Mercosul do que o inverso.
Atualmente, a UE compra 14,5% de todas as exportações do Mercosul e é origem de 20,4% de suas importações. Em sentido oposto, os produtos vendidos pela União Europeia para o Mercosul representam apenas 2,3% do total exportado pelo bloco europeu, e as importações vindas da América do Sul equivalem a 2,2% do que a UE compra do mundo.
As exportações de grãos e outros produtos agrícolas do Mercosul para o mercado europeu já respondem por cerca de 2% do PIB conjunto de Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.
Recomendação: Aprovar pelo Valor Estratégico
O estudo mencionado pela Oxford Economics, encomendado pelo Parlamento Europeu e divulgado em julho, chegou a uma conclusão similar sobre os ganhos econômicos limitados. Apesar disso, sua recomendação foi pela aprovação do acordo.
Os pesquisadores argumentam que o acordo UE-Mercosul equilibra oportunidades econômicas com medidas de proteção e um compromisso sustentável, transformando-o em uma ferramenta estratégica para fomentar uma maior integração em meio às tensões comerciais globais.
O relatório da Oxford Economics finaliza reforçando que, embora os resultados diretos possam ser modestos, o valor geopolítico e a afirmação de princípios de um comércio aberto e regulado conferem ao pacto uma importância que vai muito além das porcentagens no PIB.